quarta-feira, 27 de junho de 2012

O efeito Calixto

Os ditados populares, não raros, estão repletos de sabedorias e ensinam morais ou verdades que sempre são de bons alvitres. Pelo menos foi assim que nos ensinaram as nossas vovozinhas que viviam para nos dar conselhos.
Nesse sentido, o velho ditado popular que afirma que quem ri por último ri melhor pode muito ser aplicado ao efeito Luiz Calixto como o candidato a vice-prefeito na chapa do PMDB, encabeçada pelo ex-deputado federal Fernando Melo.

O PMDB foi o partido que trabalhou com mais dificuldade a escolha de seu candidato a vice-prefeito, pois vários nomes foram sondados, especulados, lançados numa articulação infrutífera que parecia vir se tornando um pesadelo.

Primeiro foi a escolha do tenente-coronel Juvenal, da Polícia Militar, que fez um dengo danado e acabou desistindo depois de quase ser lançado oficialmente. Sua desistência, os peemedebistas creditam à pressão do governo, que via no militar um agregador de votos em bairros populosos de Rio Branco. Assim, Juvenal deu babau.

De maneira quase incontinenti, os caciques do PMDB e o próprio pré-candidato Fernando Melo passaram a analisar outros nomes e pensaram até em uma “chapa puro sangue”, quando foram sondados nomes técnicos do partido como Maria Alice e Roberto Feres, opção que não demorou a ser descartada.

Em seguida, a cúpula do partido, juntamente com seu maior aliado, o senador Sérgio Petecão (PSD), não deixaram de se desdobrar na empreitada que tendia à escolha de um nome jovem, claro, de olho no eleitorado que mais cresceu nos últimos anos, a juventude, a exemplo das opções feitas pela Frente Popular, que escolheu Márcio Batista (PC do B), e do PSDB, com a indicação do vereador Alysson Bestene (PP).

O nome de Eduardo Ribeiro, da juventude do partido, chegou a ser o indicado, e, quase teve o martelo batido. Eduardo Ribeiro, filho de Valmir Ribeiro, conselheiro do TCE, além de jovem, também conferia a ao PMDB uma chapa puro sangue. De uma para outra tudo mudou.

O nome do ex-deputado oposicionista Luiz Calixto surgiu como uma aliança que, segundo as principais lideranças que coordenam a candidatura de Fernando Melo, torna a candidatura do PMDB, “a mais oposicionista ao PT”. Calixto tem sido um ferrenho adversário da Frente Popular de um modo geral, e do senador Jorge Viana e do governador Tião Viana, em particular.

“Agora a população de Rio Branco tem claramente a sua disposição uma opção de voto em uma oposição clara e absoluta ao projeto da Frente Popular”, afirma Fernando Melo. Claro, que a candidatura do líder nas pesquisas, Tião Bocalom, é evidentemente de oposição, e com tradição nesta tradição. Mas, com a presença de um “xiita”, como Calixto, Bocalom pode soar um opositor moderado.

Isto, nós sabemos, é o que aparenta a olhos vistos, mas a verdade é que se trata apenas de uma questão de estilos de atuação. Mas, é também inegável que Fernando Melo ganha mais com a opção de Calixto como seu companheiro de chapa do que todas as opções anteriores.

E, por quê?

Por uma razão muito simples: Calixto é independente, não está sujeito a pressões, tem experiência política e vai ocupar um lugar de destaque na campanha do PMDB, talvez até mesmo sendo um dos coordenadores, além de atuar na linha de frente da no programa eleitoral.

Aliado a isso, o PMDB pretende contar com uma dedicação especial do deputado federal Flaviano Melo, na campanha em Rio Branco, e do senador Sérgio Petecão, que não esconde de ninguém que vai rodar os bairros quantas vezes se fizeram necessárias. E sempre com Fernando Melo e Luiz Calixto a tiracolo. E isso não pode ser ignorado pelos mentores dos demais candidatos.

O efeito Calixto, portanto, é positivo também por outro aspecto: mexeu com a militância do PMDB, unindo-a, a tal ponto, que até o velho combatente Armando Dantas, não deixou de recolher a barriga, encher o peito e afirmar que está se sentido como se estivesse de volta ao movimento estudantil, nos velhos tempos da Viração.

E tudo se encerra amanhã, na convenção do PMDB, onde Melo e Calixto serão homologados candidatos. E recomeça no dia seguinte, quando ambos estão legalmente aptos a meter a cara na campanha.

E agora somente resta aguardar os desdobramentos.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Maravilhas da Filosofia

Henry Thomas
A SABEDORIA ORIENTAL
O primeiro filósofo do mundo

ACREDITA-SE geralmente que foram os gregos os _ primeiros filósofos (amantes da sabedoria) do mundo. Isso, porém, está muito longe de ser verdadeiro. Os egípcios começaram a sondar os mistérios da filosofia quasi 3.000 anos antes dos gregos. O primeiro grande filósofo, que a história menciona, foi o egípcio Ptah-hotep, que vi veu há uns 5.000 anos passados.
Ptah-hotep era Primeiro Ministro do Faraó. Quando se retirou da vida ativa, escreveu um "livro de sabedoria" para seu filho. E’ obra de um homem que viveu intensamente e que muito pensou. "A velhice está chegando — escreve êle no prefácio de seu livro — e quem é velho está engolfado num oceano de miséria. Os olhos estão enfraquecidos, os ouvidos moucos, as pernas frouxas e o coração entristecido… Mas o pensamento está cheio da sabedoria da experiência… Ouve com atenção, meu filho, as palavras de teu pai, para que sua experiência possa conduzir teus passos".
E depois Ptah-hotep prossegue "para encadear seu filho com um colar de sabedoria". Algumas das pérolas desse colar são dignas do próprio Salomão. "Não desprezes — adverte êle ao filho — aqueles que sabem menos do que tu. Porque não há limite para o saber. Há ocasiões em que até mesmo os ignorantes podem ensinar aos sábios. .. As palavras bondosas são mais raras do que esmeraldas, e um coração gentil é o mais precioso dos tesouros….. Se quiseres ser sábio, gera um filho. Se êle seguir
OS teus passos, não poupes teu louvor; se êle não seguir teus passos, não poupes a vara… Mas não uses a vara com cólera… Coisa para ser lembrada e querida é o caráter de um bom filho…"
"Ama tua mulher e não te juntes a outras mulheres… Fala quando tiveres alguma coisa suave a dizer; do contrário, guarda silêncio.. . Se quiseres governar os outros homens, aprende a obedecer e a cultivar a bondade.. . Em todas as ocasiões aprende a sabedoria do império sobre ti mesmo… Esse é o meio de ser feliz, esse é o caminho para o êxito".
Cinco mil anos se passaram desde o tempo em que o bom velho Ptah-hotep escreveu isso, mas o vinho de sua sabedoria conservou muito de sua côr e de sua fragrância até hoje. Podemos ainda bebê-lo e sentir-nos refrigerados.

O Tolstoi egípcio

NÃO muito depois de Ptah-hotep, viveu outro grande filósofo no Egito. Esse homem, porém, não foi um sereno observador da vida, mas um velho triste e desiludido. Para êle, a vida não era senão uma sucessão de reveses. "O homem, lamenta-se êle, nada mais aprendeu senão a opressão, a violência, a luta e a decadência". Como Tolstoi, acreditava que a melhor coisa para a raça humana seria desaparecer. "Pudesse a raça humana chegar a um fim, pudesse não haver mais nascimento, sofrimento e morte, e todo o mal se apagaria para sempre da face da terra".
Como os filósofos pessimistas dos nossos dias, preferia a morte à vida. "A suave Morte está diante de mim, a Morte, o bálsamo que cura todos os males, o fragante caramanchel de rosas que nos defende do deslumbrante
sol da vida, o marinheiro amigo que nos conduz à enseada da paz. A suave Morte está diante de mim, a Morte, a flor de loto que faz com que esqueçamos nossos pesares, o rio dentro de cujas águas lavamos nossas tristezas, o sossegado ono depois da febril batalha da vida. Salve, ó Morte! Fui um escravo na prisão da vida. Liberta-me de minhas cadeias e leva-me para casa, ó calma e aliviadora morte". Os egípcios, como vedes, tinham não somente seus Salomões, mas seus Schopenhauers e seus Tolstois. Mesmo na infância, a raça humana parece já estar algum tan to desiludida da vida. Não obstante, a vida, a despeito dos cépticos e dos pessimistas que tem falado mal dela, durante 5.000 anos, consegue, seja como fôr, prosseguir na sua marcha.



domingo, 2 de outubro de 2011

EU E ELA NO FACEBOOK


“Eu nada construo a meu redor, pois sou um ser de estirpe orgulhosamente profana. Qual um Zaratustra moderno, eu carrego cadáveres às costas, mas poucos são os que conseguem acompanhar a minha caminhada, sempre sob a mais absoluta diretriz dos instintos”. (EU)
***
- Boa madrugada, amiga...
- Oi, amigo, tá sem sono?
- Sou um notívago, fico cá com meus botões tentando voar para qualquer lugar onde a voz do homem seja fraca.
- Huumm...
- Dois...
- Hehehe...
- E você, ainda feliz...
- Sempre, para que ficar triste, né...
- Tristeza não vale a pena.
- Não vale não, amigo, dá dor de cabeça... E eu não gosto de tê-la.
- Eu gosto muito de escrever sobre a emoção humana, é algo fascinante, principalmente depois de compreender que usamos no máximo dez por cento de nossa cabeça animal, como dizia Raul Seixas. Decididamente, julgo o homem como um animal emocional.
- O homem é o ser mais vulnerável que existe, justamente por esse motivo.
- Exato, e esse potencial de vulnerabilidade é tão grande que dar medo, as pessoas pensam pelo coração... O meu coração, coitado, só funciona 45%.
- Somos emocionais e irracionais... 45% já tá de bom tamanho...
- Amo e odeio pela metade, sempre digo isso agora, depois das safenas.
- Eu, se fosse você, apenas odiava... Amar faz mal para o coração...
- Odeio em maior tamanho.
- Ótimo, assim iremos conversar por mais tempo.
- Somente amo a medida de 15%. Ninguém gostaria de tão pouco amor, acho que não...
- Muito bom, e de acordo com o que você disse, na verdade, então, são apenas 7,5%... Se for verdadeiro, está de bom tamanho!
- Com o desconto dos dias de lundum fechamos entre 3% e 4%.
- Huumm...
- Mas bem intenso.
- Bem, levando-se em consideração que poderia ser bem pior, está pra lá de bom.
- E, na verdade, nenhuma mulher suportaria amor acima de 10%, é uma bomba que explode a alma.
- Rsrsrs... Na verdade, amigo, mulher é um bicho meio esquisito...
- Mas é um bicho bom, amiga. Se eu tivesse que amá-la, começaria com 1%.
- Digamos que não sou muito chegada, mas elas são legais.
- Trazem segredos no corpo, cheiros extraordinários.
- Principalmente depois da maternidade...
- Mulher vale a pena até depois de ser vovó. O certo é que homem e mulher nunca vão se entender, e, se um dia se entender vão acabar com a graça.
- Dizem, pelo menos, que um homem só se tornaria amigo de uma mulher, se a achasse completamente desinteressante.
- Tempo bom era na idade da caverna, a gente dava uma porretada na cabeça dela, botava no ombro e levava pra casa.
- Verdade... Não se fazem mais homens como antigamente...
- Hoje temos que mandar flores, levar para jantar, fazer um poema, presentear com chocolates e dar beijos doces, para somente depois disso...
- Não é por nada não... Mas fora os beijos, todo o resto é dispensável...
- Concordo, mas sempre me traio. Gosto de um pouco de romantismo...
- Não existe hipocrisia no coito... Ou é, ou não é! Contato!
- Mas depois do contato, tem que ter a prosa gostosa, os beliscões, as brincadeiras, as piadas...
- Antes também.
- Sempre.
- Para mim, a inteligência é mais atraente do que as outras manifestações de afeto.
- Pelo menos nisso concordamos.
- Flores... Gosto delas no jardim...
- Tempos atrás, tinha uma campanha ecológica: em mulher não se bate nem com uma flor. Estraga a flor...  Quem disse que os machistas não tem senso de humor...
- Realmente! São pródigos.
- Machistas e feministas. Duas bostas.
- No duro! Uma vez eu me vi num antro feminista discutindo relacionamentos... Quase me crucificaram quando disse que adorava servir a quem amo...
- Devia dar a elas o poema da Cecília Meireles, quando ela diz que adora preparar o peixe que o marido pescou...
- Simplesmente disse o que eu penso.
- isso é o que importa.
- Eu gosto e não vejo nada de errado ou pecaminoso nisso, e não vou dizer nada para agradar ninguém.
- Eu gosto de ser servido, tento compensar com amor e proteção.
- Pronto! Então você é homem!
- Ainda creio nessa porra de amor, não sei por que. Mas, sem isso tudo seria pior ainda do que é.
- Mas quem é que não crê? Apenas faz como São Tomé...
- Acho que é isso que faz a joça desse mundo se mover!
- É, mas essa joça está deveras emporcalhada do que não presta e isso acaba estragando tudo!
- Você parece que está mais pessimista do que eu...
- Huumm... Só um pouquinho... Sabe... Eu odeio o mundo atual... Aliás, eu odeio o mundo que não consigo entender.
- É que pessoas inteligentes não conseguem dar uma de avestruz, então, o ódio é natural... Mas é bom não perder esta capacidade de odiar.
- Pense bem: o homem se diz o único animal racional, inteligente e capaz de grandes realizações, sob a face do planeta... Por que faz tanto mal?
- Tudo isso começou quando ele inventou Deus...
- É... As religiões são o maior mal da humanidade!
- Eles acabaram com a nossa inocência instintual, e colocaram o bem como valor universal.
- O bem e o mal são uma questão de referencial...
- Por isso me tornei nietzschiano. Estou acima do bem e do mal, vivo conforme meus próprios valores. Nunca corri atrás de sinecuras, status social, quero ser o que sou...
- Concordo e pratico!
- E não me acho um mal sujeito... Até sou capaz de atos de ternuras...
- Sentimentos.
- É tão bom conversar contigo, amiga...
- Gosto de conversar também contigo.
- Isso é bom.
- Mas me acham meio biruta...
- Mais do que eu, não...
- Às vezes sou esquisita.
- Mais do que eu, não...
- Por não acreditar em paradigmas... Por ser muito realizada.
- Triste de quem precisa de um referencial, mas o legal nisso tudo é que, com sua realização, você deu uma chega pra lá neles, isso é demais! Legal!
- Pratico o que acredito... E quando cismo... Nem por tortura mudo, sou um bocado cabeça dura...
- Isso é princípio.
- Sei lá o que é... Mas sou assim.
- Não mude, doa a quem doer, não mude.
- Eu adoro ser útil, mas odeio ser usada, já tô bem crescidinha para mudar... Só o Alzheimer me preocupa...
- Ser útil nos realiza e ser usado nos aterroriza.
- É vero!
- Esse alemão tá acabando com a vida de muita gente!
- Esse aí é o meu maior terror! Tenho um medo danado dele! Queria morrer assim: vapt-vupt! E logo!
- Eu queria morrer fazendo amor, nada de viver muito...
- Huumm... Boa ideia!
- Quero viver bem até os 65 anos, faltam, pois, apenas 13.
- Eu pretendo sair de cena um pouco antes... Fazer como os elefantes...
- Se afastar e deitar... Podíamos fazer um trato...
- Afastar-se e simplesmente morrer... O homem move-se na vida e na história pelo instinto, pela vontade, e por que não morrer da mesma forma?
- isso sim é puro Nietzsche.
- Sei disso...
- Os tolos não pensam assim, somente os grandes espíritos.
- Bem... Seja lá o que for eu quero ser como os elefantes...
- Eu serei também um elefante, tu serás uma aliá...  Afastemos-nos, pois, desta hipocrisia...
- Minha amiga disse que estou sofrendo de um processo oxidativo cerebral efeito H2O2...
- Se for contagioso quero encostar, ô se quero, em você.
- Hehehe... Ai você vai ficar loiro!
- Mas não burro!
- kkkkkkkkkkk, ah, isso não!
- Acho que vou correr o risco.
- Estou mais loira do que sempre... Será que ela pode estar certa?
- Nunca confie em um diagnóstico, principalmente se ela for médica...
- Rsrsrs... E ela é! Ela é!
- Então, não tem com o que se preocupar...
- Pronto! Não acreditarei mais na possibilidade dela ter razão!
- Isso! Isso! Agora vamos viver o tempo que nos será permitido!
- Continuarei a me guiar pelos ditames da minha consciencia! Serei apenas eu, e pensarei apenas no que me venha à cabeça... Ora, por que não?
 - Esse é o segredo de ser feliz...
- Vamos nos tornar elefantes!
- Juntos!
- Eu sou feliz por isso!
- E eu sou feliz por você!
- Bem, esse pacto é dependente...
- De que...
- De irreverência ambígua...
- Acho que isso não nos faltará, será o combustível.
- De não aceitação das prioridades como definitivamente nossas.
- Sem privilégios.
- Poderemos ser grandes amigos elefantes!
- Com inevitáveis trombadas! Pelo menos três trombadas por semana!
- kkkkkkkk... Amigos não podem ter atrativos para serem, definitivamente, amigos.
- Os atrativos são preciosos.
- E creio que de outra forma, haverão protestos...
- Se não houver protesto, não valera a pena, mas sem privilégios.
- Sem pecar...
- Sem pecar não vale a pena, mas sem privilégios.
- Exato... Quem quiser que nos siga!
- Batido o martelo! Que marchem os elefantes!
- À luta!
- Em um fremente corpo a corpo!
- Ó, céus, e onde ficará a atraente imparcialidade?
- Juntos aos pastores pedindo dinheiro para os cordeiros de Deus. Nós suaremos, choraremos, amaremos, odiaremos, venceremos, ficaremos extasiados como dois elefantes, longe da floresta.
- E bem distante deles?
- Muito distante, muito distante, pois, eles fedem a distancia.
- Ótimo, que os sigam os impuros!
- E todos os desprovidos de amor! E os maculados pela ignominia! E os fechados para a arte e para vida!
- Eles! Eles!
- Sim, eles! Urge o nosso primeiro combate!
- Estaremos unidos numa fluidez constante.
- E o mais gostoso de tudo: continuaremos mortais! E no fim de tudo serás feliz!
- E pode existir apreço?
- Sem apreço não vale a pena, mas sem privilégios.
- E o privilégio de estar só?
- Sem negociação...
- Huumm... Isso está me parecendo uma determinação...
- Assim não podemos morrer juntos, como os elefantes. Além do mais, estar só não é um privilegio, é uma necessidade.
- Valho-me dessa necessidade...
- Eu também. Por isso, cá estamos nós.
- Quero, em vida ser intensa, mas serena por fim...
- Serena, por fim, por mim, por ti, por que não desabrochas aliá inquieta e translúcida...
- Espero pela hora...
- Não me deixa esperar muito a muda vingar... Faz chuva de vez em quando, dá para vingar na terra seca, até no coração mais árido...
- Na aridez desabrocha o cacto... Ele tem espinhos...
- inevitável o machucamento, mas, é no cacto que durante a seca o gado se vale para comer e beber.
- Espinhoso, mas úmido... Sua polpa farta os desvalidos... Sei que não pertences a esse grupo...
- Este cacto pode ser quentinho, polpudo, cheiroso e molhado, mas não se preocupe, a mim não faltarão metáforas e paciência...
- E desapego...
- Para desapegar é preciso primeiro pegar, mas, ainda assim, não se preocupe... Já passou o tempo de se desesperar... O tempo é de ser livre, amar livremente.
- Passei o tempo de muita coisa...
- Mas jamais passará o tempo de morrer como os elefantes.
- Claro que não... Esse está bem perto, eu estabeleci um tempo...
- Então, está perto o tempo definitivo, o nosso tempo, que assim seja! Avoé Baco! Que o vinho nos guia nesta jornada.
- Nesse pouco tempo que me resta, só farei o que quero...
- Que assim seja, mas o que mais queres, por fim...
- Nem eu sei... Depende do dia e da hora, e das particularidades do clima... Sei lá... Não há nada de exato ou definitivo, na verdade, eu queria estar em outro mundo... Onde não houvesse a mentira, a maldade, a ambição, ah...
- Muitas dúvidas, numa delas a meteorologia pode ajudar, mas lamento informar que não existe este mundo que desejarias estar, apenas anseio que o acaso te premie com a alegria dos bons momentos com os raros espíritos...
- Pensamentos hedonistas me invadem... Ora bolas!
- Eles fazem bem, coloque-os em pratica também, é um direito...
- Estou colocando, sabe, mas eu tenho medo do vazio, não de estar só.
- Nesse caso, por que não me tirar para dançar...
- Huumm... Boa ideia. Adoro dançar!
- Então, é assim, que começaremos. Como um Zaratustra numa dança. O resto virá por si!
- Huumm... Falta você me entregar o seu livro...
- O baile é uma boa oportunidade, vou dormir como um gato borralheiro, e sonhar que perdi os sapatos nesta festa...
- Huumm... Certo. E eu guardarei seu sapatinho de cristal para a próxima oportunidade! Decida-se!
- Já decidi. E todos os meus desejos já foram insinuados. Boa noite!
- Boa noite!
***
"Eu traço círculos e fronteiras sagradas em torno de mim; sempre mais raros são os que comigo sobem montanhas sempre mais altas – eu construo um maciço de montanhas sempre mais sagradas". (ELA)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O homem rotineiro

Por José Inginieros

A rotina é um esqueleto fóssil, cujas peças resistem à carcoma do século. Não é filha da experiência; é a sua caricatura. A primeira é fecunda, e engendra verdades; a outra é estéril, e as mata.
Na sua órbita giram os espíritos medíocres. Evitam sair dela, e cruzar espaços novos; repetem que é preferível o mau conhecido ao bom ignorado. Ocupados em desfrutar o existente, alimentam horror a toda inovação que perturbe a sua tranqüilidade, e lhes traga desassossegos. As ciências, o heroísmo, as originalidades, as invenções, a própria virtude, parecem-lhes instrumentos do mal, posto que desarticulam o edifício dos seus erros: como nos selvagens, nas crianças nas classes incultas.
Acostumados a copiar, escrupulosamente, os preconceitos do meio em que vivem, aceitam, sem verificação, as idéias distiladas no laboratório social: como esses enfermos de estômago imprestável, que se alimentam com substâncias já digeridas nos frascos das farmácias. Sua impotência para assimular idéias novas, obriga-os a adotar as antigas
A Rotina, síntese de todas as renuncias, é o hábito de renunciar a pensar. Nos rotineiros, tudo é menor esforço; a preguiça enferruja a sua inteligencia. Cada hábito é um risco, porque a familiaridade se forma no sentido das coisas detestáveis e das pessoas indignas. Os atos que, a princípio, provocavam pudor, acabam por parecer naturais; a retina percebe os tons violentos como simples matizes, o ouvido escuta as mentiras com igual respeito com que ouve verdades, o coração aprende a não se agitar diante de ações torpes.
Os conceitos são crenças anteriores à observação; os juízes exatos, ou errôneos, são consecutivos a ela. Todos os indivíduos possuem hábitos mentais; os conhecimentos adquiridos facilitam os vindouros, e marcam o seu caminho. Até certo ponto, ninguém pode subtrair-se à sua ação. Não são exclusividades dos homens medíocres; mas, nestes, representam sempre uma passiva obseqüência ao erro alheio. Os hábitos adquiridos pelos homens originais são genuinamente seus, intrínsecos: constituem o seu critério, quando pensam, e o seu caráter, quando atuam; são individuais e inconfundíveis. Diferem substancialmente da Rotina, que é coletiva e sempre perniciosa, extrínseca ao indivíduo, comum ao rebanho; consiste em ser contagiado pelos preconceitos que infestam a cabeça dos outros. Aqueles caracterizam os homens; esta empana as sombras. O indivíduo plasma para si próprio nos primeiros; a sociedade impõe a segunda. A educação oficial envolve esse perigo; tenta apagar toda originalidade, pondo iguais opiniões em cérebros diferentes. A cilada persiste no inevitável trato mundano com homens rotineiros. O contágio mental flutua na atmosfera, e acossa por todos os lados; nunca se viu um tolo originalizado pela contiguidade, mas freqüentemente é possível que um engenho se atoleie entre palpavos.

A mediocridade é mais contagiosa que o talento.



terça-feira, 13 de setembro de 2011

O homem honesto

A mediocridade moral é impotente para a virtude e, cobardia para o vício. Se há mentes que parecem manequins articulados com rotinas, abundam corações semelhantes a balões inflados de preconceitos. O homem honesto pode temer o crime, sem admirar a santidade; é incapaz de iniciativa para ambas as coisas. As guerras do passado prendem-no pelo coração, estran-gulando-lhe, ainda em germe, todo anelo de aperfeiçoamento futuro. Suas opiniões são os documentos arqueológicos da psicologia social; resíduos de virtudes crepusculares, supervivencias de morais extintas.
As mediocracias de todos os tempos são inimigas do homem virtuoso: preferem o honesto, e o enaltecem, como exemplo. Há, nisso, implícito, um erro, ou uma mentira, que convém dissipar. Honestidade não é virtude, embora também não seja vício. Pode-se ser honesto, sem sentir uma ânsia de perfeição; basta, para isso não ostentar o mal, o que não é suficiente para ser virtuoso. Entre o vício, que é uma tara, e a virtude, que é uma excelência, flutua a honestidade.

A virtude se eleva sobre a moral corrente; implica certa aristocracia do coração, própria do talento moral; o virtuoso se antecipa a alguma forma de perfeição futura, e lhe sacrifica os automatismos consolidados pelo hábilo.

O homem, ao contrário, é passivo, circunstância que lhe marca um nível moral superior ao do vicioso, embora permaneça por baixo daquele que pratica ativamente uma virtude, e orienta a su vida no sentido de algum ideal. Limitando-se a respeitar os preconceitos que o asfixiam, mede a moral com a falsa medida usada pelos seus iguais, a cujas frações são irredutíveis as tendências inferiores dos acanalhados e as aspirações conspícuas dos virtuosos. Se êle não chegasse a assimilar os juízos, até ficar perfeitamente saturado, a sociedade o castigaria como delinqüente, por sua conduta desonesta; se pudesse sobrepor-se aos juízos, seu talento revelaria sulcos dignos de ser seguidos. A mediocridade está em não provocar o escândalo, nem servir de exemplo.

O homem honesto pode praticar ações cuja dignidade conhece, toda vez que a isso se veja constrangido pela força dos preconceitos, que são obstáculos com que os hábitos adquiridos emboraçam as variações novas. Os atos que já são maus, no juízo iriginal dos virtuosos, podem continuar a ser considerados bons pela opinião coletivo. O homem superior pratica tal como a julga, iludindo os prejuízos que subjugam a massa honesta; o medíocre continua denominando bem o que já deixou de ser, por incapacidade de vislumbrar o bem do porvir. Sentir com o coração dos outros, equivale a pensar com a cabeça alheia.

A virtude constuma ser um gesto audaz, como tudo o que é original; a honestidade é um uniforme que se veste resignadamente. O medíocre teme a opinião pública, com a mesma obseqüência com que o crédulo teme o inferno; nunca tem a ousadia de se opor a ela, e, menos ainda, quando a aparência do vício é um perigo ínsito em toda virtude não compreendida. Renuncia a ela pelos sacrifícios que implica.

Esquece que não há perfeição sem esforço; somente aqueles que ousam cravar sua pupila no sol, sem temer a cegueira, podem ver aluz, pela frente. Os corações apoucados não colhem rosas em seu jardim, com medo dos espinhos; os virtuosos sabem que é necessário expôr-se a eles, para colher as flores mais perfumosas.

O honesto é inimigo do santo, como o rotineiro o é do gênio; este é denominado" louco", e aquele é julgado "amoral". Expliça-se: eles os medem com sua própria medida, em que estes não cabem. Em seu dicionário, "cordura" e "moral" são os nomes que eles reservam às suas próprias qualidades. Para a sua moral de sombras, o hipócrita é honesto; o virtuoso e o santo, que a excedem, parecem-lhes "amorais", e, com esta qualificação atribuem-se-lhes, veladamente, certa imoralidade. Homens de pacotilha, dir-se-ia feitos com retalhos de catecismo e com aparas de vergonhas: o primeiro ofertante pode comprá-los a baixo preço. Em geral, mantêm-se honesto, por conveniência; algumas vezes, por simplicidade, se o prurido da tentação não importuna a sua estupidez. Ensinam que é necessário ser como os outros; ignoram que só é virtuoso aquele que aspira o melhor. Quando nos murmuram, aos ouvidos, aconselhando-nos a renunciar o sonho e a imitar o re banho, não têm o valor de nos sugerir, diretamente, a apostasia do nosso ideal, para sentar-nos a ruminar a merenda comum.

A sociedade predica: "não faças o mal, e serás honesto". O talento moral tem outras exigências: "aspira uma perfeição, e serás virtuoso".

A honestidade está ao alcance de todos; a virtude é de poucos eleitos. O homem suporta o jugo a que os seus cúmplices o submetem; o homem virtuoso eleva-se sobre os demais, com um movimento de aza.

A honestidade é uma indústria: a virtude exclue o cálculo. Não há diferença entre o cobarde que modera seus atos, com medo do castigo, e o cubiçoso que os pratica, na esperança de uma recompensa. Ambos levam em partida dupla as suas contas correntes com os preconceitos sociais. Aquele que treme diante do perigo, ou busca uma prebenda, é indigno de proferir a palavra virtude: por esta se arriscam à proscrição e à miséria: Não diremos contudo que o virtuoso é infalível. Mas a virtude implica uma capacidade de retificações espontâneas, o conhecimento leal dos próprios erros, como uma lição paar si mesmo e para os outros, a firme retidão da conduta anterior. Aquele que paga uma culpa, com muitos anos de virtude, é como se nunca tivesse pecado: purifica-se. Ao contrário, o medíocre não reconhece os seus erros, nem se envergonha com eles, agravando-os com impudor, sublinhan-do-os com a reincidência, duplicando-os com aproveitamento dos resultados eventuais.

Predicar a honestidade seria excelente, se ela não fosse uma renúncia da virtude, cujo norte é a perfeição incessante. Seu elogio empana o culto da dignidade, e é a prova mais segura do descanso de um povo. Eneltecendo o fraudulento, afronta-se o severo; pelo tolerante, se esquece o exemplo. Os espíritos acomodaticios chegam a aborrecer a firmeza e a lealdade, a força de medrar com o servilismo e a hiprocrisia.

Admirar o homem honesto, é rebaixar-se; adorá-lo, é envilecer-se. Stendhal reduzia a honestidade a urna simples forma de medo: convém acrescentar que não é um medo ao mal em si, senão da reprovação dos outros; por isso, c compatível com uma ausência total de escrúpulos para com todo ato que não tenha sanção expressa, ou que possa permanecer ignorado.

"J’ai vu le fond de ce qu’on appelle les honnêtes gens: c’est hideux", dizia Talleyrand, perguntando-se a si próprio o que seria de tais indivíduos, se o interesse e a paixão entrassem em jogo. Seu medo ao vício e sua impotência para a virtude se equivalem. Não são assassinos, mas não são heróis; não roubam, mas não dão metade do seu pão ao inválido; não são traidores, mas também não são leais: não assaltam a descoberto, mas não defendem o assalto; não violam virgens, mas não redimem as decaídas; não conspiram contra a sociedade, mas não cooperam para o engrandecimento comum.

Diante da honestidade hipócrita — própria de mentes rotineiras e de caracteres domesticados — existe uma heráldica moral, cujos brasões são a virtude e a santidade. E a antítese da tímida obediência aos prejuízos, que paraliza o coração dos temperamentos vulgares, e que degenera nessa apoteose de frieza sentimental que caracteriza a erupção de todas as burguezias.

A virtude requer fé, entusiasmo, paixão arrojo; vive disso. Requer tais coisas na intenção e nas obras. Não há virtude, quando os atos desmentem as palavras, nem cabe nobreza, onde a intenção se arrasta.

Por isso, a mediocridade moral é mais nociva nos homens conspícuos e nas classes privilegiadas.

O sábio que atraiçoa a sua verdade, o filósofo que vive fora da sua moral, e o nobre que desonra o seu berço, descem às mais ignominiosas das vilanias; são menos desculpáveis, do que o truão enlodaçado no delito. Os privilégios da cultura e do nascimento impõem, ao que desfruta, uma lealdade exemplar para consigo próprio.

E’ inútil que perdure em ridículos pergaminhos a nobreza que não está na nossa ânsia de perfeição; nobre é o que revela, em seus atos, um respeito para com a sua classe, e não o que alega sua ilustre ascendência, para justificar atos ignóbeis. Pela virtude, nunca pela honestidade, é que se medem os valores da aristocracia moral.



quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Os filósofos do epicurismo

Os epicuristas são os inimigos hereditários dos estóicos.

Não tem fim a polêmica entre as dois campos. Fundador da escola é Epicuro de Samos (314-270). Foi seu mestre o discípulo de Demócrito, Nausífanes. A ascendência atomista foi decisiva para toda a escola, que Epicuro dirigiu no seu Jardim, em Atenas, desde 306.

E foi devido a esses Jardins que os epicuristas receberam a denominação — os do Jardim.

A figura do fundador da escola constitui a alma do todo, mais do que o método ou a dogmática aí em pregados. Epicuro era uma fina, distinta e atraente personalidade. Era louvado pelo seu desinteresse, sua brandura, bondade e profunda concepção da amizade.

Suas máximas valiam tanto como dogmas.

Dos seus escritos, que devem ter orçado pelos 300, só se conservaram fragmentos. — Entre os demais membros da escola merecem menção os seguintes: Metrodoro de Lâmpsaco, talvez coevo, representante de uma doutrina algo rústica do prazer. Da segunda metade do segundo século a. C, Apolodoro, polígrafo, que recebeu o título de tirano do Jardim; Zeno de Sidônia, bem como Fedro, ouvido e estimado por Cícero; Siron, mestre de Virgílio, e Filodemo de Gádara, de cujos escritos partes importantes foram encontradas em Her culano.

— A fonte mais instrutiva para se conhecer o epicurismo é Lucrécio Caro (96-55 a. C).

Seu poema Sobre a Natureza pretende expor fielmente o atomismo de Demócrito, renovado por Epicuro. "Tu, ornamento do povo grego; primeiro a projetares uma radiante luz sobre a profunda escuridão e a mostrares a beleza da vida, a ti sigo-te eu passo a passo, não para rivalizar contigo, mas por querer imitar-te com amor e veneração”.

Por meio de Lucrécio, de novo, a Filosofia grega foi introduzida em Roma; e também o epicurismo foi um pensamento talhado para esse tipo espiritual, que é o homem fino da época de Virgílio, Mecenas, Horacio, Augusto.

Mas não foi só em Roma que Lucrécio introduziu o atomismo, pois também nele se inspirou a Filosofia moderna. E assim se entrelaçam, ainda uma vez, os arcos que prendem a antigüidade aos tempos modernos.



terça-feira, 19 de julho de 2011

A moral de Tartufo

A hipocrisia é a arte de amordaçar a dignidade; ela faz emudecer os escrúpulos nos espíritos incapazes de resistir à tentação do mal. É falta de virtude para renunciar a éste, e de coragem para assumir a sua responsabilidade.

É o guano que fecunda os temperamentos vulgares, permitindo-lhes prosperar na mentira: como essas árvores cuja ramagem é mais frondosa, quando crescem nas imediações dos lodaçais.

Gela, por onde ela passa, todo nobre germe de ideal: é o evento rijo e frio que destrói o entusiasmo. Os homens rebaixados pela hipocrisia vivem sem sonho, ocultando suas intenções, disfarçando seus sentimentos, dando saltos como uma fera; têm a íntima certeza, embora inconfessada, de que seus atos são indignos, vergonhosos, nocivos, arrufinados, irremissíveis.

Por isso, sua moral é dissolvente: envolve sempre uma simulação.

Os hipócritas não são impelidos por fé alguma; não suspeitam o valor das crenças retilíneas. Esquivam a responsabilidade das suas ações, são audazes, na traição, e, tímidos, na lealdade.

Conspiram, e agridem na sombra, espeçonhentas, e difamam com aveludada suavidade. Nunca ostentam um galardão inconfundível: cerram todas as frinchas do seu espírito, pelas quais poderia escapar-se, ou revelar-se, a sua personalidade nua, sem roupagem social da mentira.

É seu anelo simular as aptidões e qualidades que consideram vantajosas, para acentuar a sombra que projetam no seu cenário. Assim como os engenhos exíguos macaqueiam o talento intelectual, sobrecarregan-do-se de requintados artifícios, subterfúgios e defesas, os indivíduos de moralidade indecisa parodiam o talento moral, ouro pelando de virtude a sua insípida honestidade.

 Ignoram o veredicto do próprio tribunal interior; aspiram o salvo-conduto outorgado pelos cúmplices dos seus prejuízos convencionais.

O hipócrita costuma tirar vantagens da sua virtude, fingida, em maior proporção, do que o verdadeiro virtuoso. Pululam homens respeitados, somente porque ainda não foram descobertos sob sua máscara; bastaria penetrar na intimidade dos seus sentimentos, por um minuto apenas, para advertir a sua dobrez, e transformar, em desprêso, à estima.

O psicólogo reconhece o hipócrita; traços há que diferenciam o virtuoso do simulador; pois, enquanto este é um cúmplice das opiniões que fermentam em seu meio, aquele possui algum talento que lhe permite so-brepôr-se a elas.

Todo apetite pecuniário desperta a sua argúcia, e o impele a descobrir-se.

Não retrocede diante de artimanhas, é fácil às reverências fementidas, sabe farejar o despojo de amos, vende-se ao melhor ofertante, prospera à força de maranhas. Triunfa sobre os sinceros, toda vez que o êxito se estriba em aptidões vis: o homem real é. com freqüência, a sua vítima.

Cada Sócrates encontra a sua cicuta, e cada Cristo, o seu Judas. (José Ingenieros - 1877-1925)