quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Os filósofos do epicurismo

Os epicuristas são os inimigos hereditários dos estóicos.

Não tem fim a polêmica entre as dois campos. Fundador da escola é Epicuro de Samos (314-270). Foi seu mestre o discípulo de Demócrito, Nausífanes. A ascendência atomista foi decisiva para toda a escola, que Epicuro dirigiu no seu Jardim, em Atenas, desde 306.

E foi devido a esses Jardins que os epicuristas receberam a denominação — os do Jardim.

A figura do fundador da escola constitui a alma do todo, mais do que o método ou a dogmática aí em pregados. Epicuro era uma fina, distinta e atraente personalidade. Era louvado pelo seu desinteresse, sua brandura, bondade e profunda concepção da amizade.

Suas máximas valiam tanto como dogmas.

Dos seus escritos, que devem ter orçado pelos 300, só se conservaram fragmentos. — Entre os demais membros da escola merecem menção os seguintes: Metrodoro de Lâmpsaco, talvez coevo, representante de uma doutrina algo rústica do prazer. Da segunda metade do segundo século a. C, Apolodoro, polígrafo, que recebeu o título de tirano do Jardim; Zeno de Sidônia, bem como Fedro, ouvido e estimado por Cícero; Siron, mestre de Virgílio, e Filodemo de Gádara, de cujos escritos partes importantes foram encontradas em Her culano.

— A fonte mais instrutiva para se conhecer o epicurismo é Lucrécio Caro (96-55 a. C).

Seu poema Sobre a Natureza pretende expor fielmente o atomismo de Demócrito, renovado por Epicuro. "Tu, ornamento do povo grego; primeiro a projetares uma radiante luz sobre a profunda escuridão e a mostrares a beleza da vida, a ti sigo-te eu passo a passo, não para rivalizar contigo, mas por querer imitar-te com amor e veneração”.

Por meio de Lucrécio, de novo, a Filosofia grega foi introduzida em Roma; e também o epicurismo foi um pensamento talhado para esse tipo espiritual, que é o homem fino da época de Virgílio, Mecenas, Horacio, Augusto.

Mas não foi só em Roma que Lucrécio introduziu o atomismo, pois também nele se inspirou a Filosofia moderna. E assim se entrelaçam, ainda uma vez, os arcos que prendem a antigüidade aos tempos modernos.



terça-feira, 19 de julho de 2011

A moral de Tartufo

A hipocrisia é a arte de amordaçar a dignidade; ela faz emudecer os escrúpulos nos espíritos incapazes de resistir à tentação do mal. É falta de virtude para renunciar a éste, e de coragem para assumir a sua responsabilidade.

É o guano que fecunda os temperamentos vulgares, permitindo-lhes prosperar na mentira: como essas árvores cuja ramagem é mais frondosa, quando crescem nas imediações dos lodaçais.

Gela, por onde ela passa, todo nobre germe de ideal: é o evento rijo e frio que destrói o entusiasmo. Os homens rebaixados pela hipocrisia vivem sem sonho, ocultando suas intenções, disfarçando seus sentimentos, dando saltos como uma fera; têm a íntima certeza, embora inconfessada, de que seus atos são indignos, vergonhosos, nocivos, arrufinados, irremissíveis.

Por isso, sua moral é dissolvente: envolve sempre uma simulação.

Os hipócritas não são impelidos por fé alguma; não suspeitam o valor das crenças retilíneas. Esquivam a responsabilidade das suas ações, são audazes, na traição, e, tímidos, na lealdade.

Conspiram, e agridem na sombra, espeçonhentas, e difamam com aveludada suavidade. Nunca ostentam um galardão inconfundível: cerram todas as frinchas do seu espírito, pelas quais poderia escapar-se, ou revelar-se, a sua personalidade nua, sem roupagem social da mentira.

É seu anelo simular as aptidões e qualidades que consideram vantajosas, para acentuar a sombra que projetam no seu cenário. Assim como os engenhos exíguos macaqueiam o talento intelectual, sobrecarregan-do-se de requintados artifícios, subterfúgios e defesas, os indivíduos de moralidade indecisa parodiam o talento moral, ouro pelando de virtude a sua insípida honestidade.

 Ignoram o veredicto do próprio tribunal interior; aspiram o salvo-conduto outorgado pelos cúmplices dos seus prejuízos convencionais.

O hipócrita costuma tirar vantagens da sua virtude, fingida, em maior proporção, do que o verdadeiro virtuoso. Pululam homens respeitados, somente porque ainda não foram descobertos sob sua máscara; bastaria penetrar na intimidade dos seus sentimentos, por um minuto apenas, para advertir a sua dobrez, e transformar, em desprêso, à estima.

O psicólogo reconhece o hipócrita; traços há que diferenciam o virtuoso do simulador; pois, enquanto este é um cúmplice das opiniões que fermentam em seu meio, aquele possui algum talento que lhe permite so-brepôr-se a elas.

Todo apetite pecuniário desperta a sua argúcia, e o impele a descobrir-se.

Não retrocede diante de artimanhas, é fácil às reverências fementidas, sabe farejar o despojo de amos, vende-se ao melhor ofertante, prospera à força de maranhas. Triunfa sobre os sinceros, toda vez que o êxito se estriba em aptidões vis: o homem real é. com freqüência, a sua vítima.

Cada Sócrates encontra a sua cicuta, e cada Cristo, o seu Judas. (José Ingenieros - 1877-1925)







quarta-feira, 29 de junho de 2011

A paixão nos mediocres

José Ingenieros (1877-1925)


A inveja é uma adoração que as sombras sentem pelos homens, que a mediocridade sente pelo mérito. É o rubor da face sonoramente esbofeteada pela gloria alheia. É a grilheta que os fracassados arrastam. É o áloc que os impotentes mastigam. É um humor veneno-no que se expele das feridas abertas pelo desengano da própria insignificância.
Por suas forças caudinas passam, cedo ou tarde, os que vivem como escravos da vaidade; desfilam, lívidos de angústia, trovos envergonhados da sua própria tristeza, sem suspeitarem que o seu ladrar envolve uma con sagração inequívoca do mérito alheio. A inextinguível hostilidade dos néscios sempre foi o pedestal de um mo numento.
É a mais ignóbil das torpes cicatrizes que afetam os carácteres vulgares. Aquele que inveja, rebaixa-se, sem o saber; confessa-se subalterno; esta paixão é o estig ma psicológico de uma humilhante inferioridade, senti da reconhecida.
Não basta ser inferior para invejar, pois todo ho mem o é de alguém, num sentido ou noutro; é necessá rio sofrer em conseqüência do bem alheio, da felicidade alheia, de qualquer enaltecimento alheio. Nesse sofrimento está o núcleo moral da inveja; morde o coração, como um ácido; carcome-o, como polilha; corrói, como a ferrugem, ao metal.
Das más paixões, nenhuma lhe leva vantagem. Plutarco dizia — e La Rochefoucauld o repete — que existem almas corrompidas até o ponto de se vangloriarem de vícios infames; mas nenhuma ainde teve a coragem de se confessar invejosa. Desconhecer a própria inveja, implicaria, ao mesmo tempo, declarar-se inferior ao invejado: trata-se de uma paixão tão abominável, tão universalmente detestada, que envergonha os mais impudicos, e se faz impossível para ocultá-la.
É surpreendente o fato de os psicólogos a terem esquecido em seus estudos sobre as paixões, limitando-se a mencioná-la como um caso particular do ciúme. Foi tão grande a sua difusão e a sua virulência, em todos os tempos, que já a mitologia grego-latina lhe atribuía origem sobrehumana, fazendo-a nascer das trevas noturnas.
O mito lhe empreta cara de velha horrivelmente fraca e exangue, com a cabeça cobreta de víboras, ao invés de cabelos. Seu olhar é torvo; seus olhos, fundos; os dentes, negros; a língua, untada com tóxicos fatais; com uma das mãos, agarra três serpentes, e, com a outra, uma hidra, ou uma teia; incuba, em seu seio, um monstruoso réptil que a devora continuamente e lhe instila o seu veneno; está agitada; não ri; nunca o sono fecha as pálpebras sobre os seus olhos irritados. Todo sucesso feliz a aflige, ou esporeia a sua angústia; destinada a sofrer, é o verdugo implacável de si mesma.
É a paixão traidora e propícia à hipocrisia. Está para o ódio, como a gazúa para a espada; empregam-na os que não podem competir com os invejados. Nos ímpetos de ódio, pode palpitar o gesto da garra que, num desesperado estremecimento, destroça e aniquila; no rep-to sobreptício da inveja, só se percebe o rastejar tímido daquele que procura morder o calcanhar.
Teofrasto julgou que a inveja se confunde com o ódio, ou nasce dele — opinião já enunciada por Aris tóteles, seu mestre. Plutarco ventilou a questão, preo ocupando-se com o estabelecimento de diferenças entre us duas paixões (Obras morais, II). Diz que, à primeira vista, se confundem; parecem brotar da maldade; quando se associam tornam-se mais fortes, como duas en fermidades que se complicam. Ambas sofrem em consequência do bem, e gostam do mal alheio; mas esta se melhança não basta para as confundir, se prestarmos atenção às suas diferenças. Só se odeia o que se julga mau u nocivo; ao contrário, toda prosperidade excita a inveja, como qualquer resplendor irrita os olhos en-fermos.
Podem-se odiar as coisas e os animais; só se pode invejar aos homens.



sexta-feira, 17 de junho de 2011

Pérolas chinesas de sabedoria

Inteligência Criadora, "é talvez o mais profundo de todos os homens". Êle olha o europeu — talvez com justiça — como um bárbaro. Os chineses têm uma teoria interessante a respeito da origem da raça humana. O Primeiro Homem, Pan Ku, modelou a forma do universo (assim dizem eles) há justamente, 2.231.000 anos. "Seu hálito tornou-se o vento, sua voz tornou-se o trovão, seus olhos tornaram-se o sol e a lua, seus cabelos tornaram-se a relva e as árvores, e seus parasitas tornaram-se a raça humana".
Os filósofos chineses, como vedes, têm um fino senso de humor. A seguinte anedota ilustrará melhor o rico sabor de seu humor. Um homem rico afogou-se no rio Wei. Seu corpo foi encontrado por um pescador, que exigiu enorme soma em paga. A família do afogado foi aconselhar-se com o famoso filósofo Teng Shih. "Não pagueis o que pede o pescador, aconselhou Teng. Êle entrará num acordo, porque nenhuma outra família desejará o corpo". Quando o pescador viu que não podia obter o preço que havia pedido, alarmou-se e foi também aconselhar-se com Teng. "Não abaixe seu preço, aconselhou Teng, ironicamente, files terão de chegar a uni acordo, porque nenhuma outra pessoa há de querer ficar com o corpo".

Ficamos sem saber qual o fim da história. Conta-se, porém, que a cabeça demasiado astuta de Teng foi finalmente removida de seu corpo, por ordem do rei.

Maior filósofo ainda que Teng Shih foi Lao-tze (seu nome significava Velho Mestre). Por mais estranho que pareça, sua filosofia era a condenação de toda a filosofia. O saber, dizia êle, não conduz necessariamente à virtude. Como prova, vê-se que um homem que sabe demais é geralmente um patife. "Quando renunciamos a saber, de-sembaraçamo-nos de nossas inquietações". Um avisado chefe ensinará seus comandados a serem simples e ignorantes. Quando o povo sabe demais, recusa-se a ser governado. Os chefes deverão evitar os conselheiros sábios. Somente saberão confundi-los e lançar seu país na desordem. "A nação mais feliz — dizia êle, e talvez também falasse ironicamente — é aquela que não tem livros, nem legistas, nem professores, mas somente negociantes e lavradores aldeões". O povo de tal país dar-se-á por contente com seu alimento inferior, suas roupas grosseiras e suas casas rústicas.

Lao-tze acreditava numa volta a natureza. Àdvoga-ya a virtude da vida simples. Era o Rousseau chinês. "O mais feliz dos homens é aquele que dominou sua ambição, e o mais sábio dos homens é aquele que reconheceu a loucura de seu saber". É devido em grande parte à filosofia de Lao-tze que os chineses permaneceram até hoje uma raça tão desambiciosa e, como muitos sustentam, tão sábia.

A filosofia de Lao-tze muito concorreu para moldar o caráter e o pensamento de Confúcio, um dos mais extraordinários mestres religiosos da história. Exerceu também profunda influência sobre o filósofo chinês, surgido mais tarde, Mo Ti. "É a ambição de poucos a responsável pelas desgraças de muitos" — observou Mo Ti. "O egoísmo está na base de todos os males. Por causa de seu egoísmo, o forte oprime o fraco, o rico esbulha o pobre, o nobre tiraniza o plebeu e o velhaco suplanta o ingênuo. É na verdade um estranho mundo esse em que vivemos", diz Mo Ti, em palavras que soam como se fossem pronunciadas em pleno século XX. "Neste nosso desconsertado mundo, se um homem rouba um porco, vai para a cadeia; se rouba um país, sobe a um trono".

De Mo Ti e Bernardo Shaw temos um hiato de mais de 2.000 anos. Contudo Shaw exprimiu quase exatamente a mesma idéia, com quase exatamente as mesmas palavras. O velho sábio chinês foi digno mestre do inteligente e moderno irlandês.




segunda-feira, 23 de maio de 2011

O CRAVO NÃO BRIGOU COM A ROSA

Texto de Luiz Antônio Simas

Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto.

Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais O cravo brigou com a rosa. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo - o homem - e a rosa - a mulher - estimula a violência entre os casais. Na nova letra "o cravo encontrou a rosa debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada".

Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha.

Será que esses doidos sabem que O cravo brigou com a rosa faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro?

É Villa Lobos, cacete!

Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas. A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar.

Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.

Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem entra na roda dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil.

Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social entre os homens.

Dia desses alguém [não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da Aruanda] foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado. Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e setenta e poucos, que algum filho estava militando na causa da preservação do mico leão dourado, em defesa das bromélias o u coisa que o valha. Bicha louca, diria o velho.

Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado ? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da criatividade, da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.

Daqui a pouco só chamaremos o anão - o popular pintor de roda-pé ou leão de chácara de baile infantil - de deficiente vertical .. O crioulo - vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) - só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo - o famoso branco azedo ou Omo total - é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais evidente. A mulher feia - aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno - é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O gordo - outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, Orca, baleia assassina e bujão - é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de virar tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.

Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais... Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.

O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra putaqueopariu e o centroavante pereba tomar no olho do cu, cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de Beethoven, entremeado pelo coro de Jesus, alegria dos homens, do velho Bach.

Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé na cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro funeral, o popular tá mais pra lá do que pra cá, já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a "melhor idade".

Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos? Não.

Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do pé junto.

Abraços,
Luiz Antônio Simas

(Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor de História do ensino médio).





sábado, 7 de maio de 2011

Ela chorou por bin Laden

Eu tenho uma amiga mulçumana.

Ela não usa burca nem se veste com o rigor de seus pares orientais. Ela está bastante ocidentalizada. Fala bem o português. É tradutora para o árabe. Vive na ponte aérea entre o Rio de Janeiro e São Paulo, sempre carregando uma penca de trabalhos acadêmicos, os quais são analisados por seus patrões editoriais, após verter de uma língua para outra.

Ela é apaixonada pelo Brasil.

Num ropante veio me ver em Natal. Chegou avisando com apenas algumas horas de antecedência. E ficou por apenas dois dias: um sábado e um domingo. Pagou o hotel, mas não ocupou o quarto. Me fez companhia todo o tempo. Foi minha hóspede em meu apartamento na Praia do Meio.

Nos conhecemos em Ribeirão Preto há muitos anos, e nos identificamos pelo amor à literatura. Aprendi muito com ela.

Em Natal comemos chambaril, escondidinho e paçoca. Andamos pelo litoral. Ponta Negra, Pium, São Miguel do Gostoso, Santa Rita e pelos bares da cidade, onde turista não anda, mas que eu conheço muito bem, depois de mais de duas décadas frequentando esta cidade.

Ela estava comigo quando a mídia capitalista fez a lambança ao anunciar o assassinato do terrorista Osama bin Laden. Nádia, então, chorou, chorou baixinho. Um choro comedido, silencioso, inédito e misterioso para mim. Não sei porque Nádia chorou. Se de tristeza, de alegria, não sei, confesso.

Mas é certo que Nádia chorou por bin Laden. Ou por sua morte.

"Os Estados Unidos satanizam o mundo e todos batem palmas. Por quê? Indagou. Não respondi. Nem saberia responder, pois ainda estava surpreso com suas lágrimas instantâneas. Ah, sim, estava. Mas ela insistiu: eles estão nas ruas de Nova Iorque comemorando, bestiais.

Pensei, então que talvez ela não chorasse por bin Laden, mas pela mediocridade americana. Então, eu disse:

- Não se perturbe por eles. A classe média americana é idotizada, burra, infeliz, fast food, shoppincenter 24 horas, ignorante, doente, massa de manobra de democratas e republicanos mais idiotizados ainda.

Não a confortei, pressenti. Mas ela sorriu engolindo as lágrimas que lhe passavam pelo canto da boca. E me disse:

- Amigo, não choro pelos americanos. Choro pela indecência. Pela demência humana. Não existe uma civilização humana, mas uma barbárie civilizada politicamente. A execução sumária é creditada na conta corrente dos ignorantes e aplaudida pelos países em geral. Não existem mais valores que podemos seguir. Eles todos são negados enquanto os cultivamos. Justiça e verdade são quimeras. O que nos resta é o caminho do egoísmo feliz.

Concordei.

Nádia foi ao banheiro e quando voltou pediu mais uma cerveja e mudou de assunto. Me deu notícias dos poetas paulistas e elogiou o meu primeiro romance, O Escaravelho da Floresta. Beliscou castanha de caju, bebericou e sorriu, como se nada estivesse acontecido.

Conversamos amenidade e fomos para casa. Antes de dormir me deu um beijo de boa noite e se dirigu para o quarto, enquanto eu me acomodava na rede da sala. Antes de dormir, porém, reapareceu com sua colorida roupa de deitar e me disse:

- Mas nem tudo está perdido, Stélio. O povo tomou as ruas no Oriente Médio.

Nádia, depois disso, então, dormiu como um anjo de Alá. 

sábado, 16 de abril de 2011

Toda brincadeira tem sempre um fundo de verdade





Sorri quando a dor te torturar

E a saudade atormentar

Os teus dias tristonhos vazios



Sorri quando tudo terminar

Quando nada mais restar

Do teu sonho encantador



Sorri quando o sol perder a luz

E sentires uma cruz

Nos teus ombros cansados doridos



Sorri vai mentindo a sua dor

E ao notar que tu sorris

Todo mundo irá supor

Que és feliz



O poema belamente musicado de Charles Chaplin, logo na abertura desta crônica, não deixa dúvida: nem toda brincadeira tem um fundo de verdade, mas existe brincadeira de verdade, ou seja, que é pura brincadeira mesma. Pelo menos é o que podemos apreender como em silogismo: a brincadeira é brincadeira, logo é verdade que é brincadeira.

O que o ditado, afinal, quer dizer é que pode existir alguma crítica, geralmente maledicente, em algumas brincadeiras. O que também ocorre de praxe. Não raro, as pessoas que não tem coragem de desembuchar suas verdades recalcadas ou suas invejas vergonhosas utilizam de subterfúgios para dizer uma coisa ou outra.

Também não é raro costumarmos dizer: quando tudo começou não passava de brincadeiras... Se tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando, falei muitas vezes como um palhaço, mas jamais duvidei da sinceridade da plateia que sorria, afirmou ainda o velho Chaplin.

Brincadeira e verdade, a rigor, não tem nada uma a ver com a outra. Mas não são objetos dissonantes, coisas que, como água e óleo, não se misturam. Estas se misturam, sim.

Tão pouco são implicitamente desassociativas.

Perdido seja para nós aquele dia em que não se dançou nem uma vez! E falsa seja para nós toda a verdade que não tenha sido acompanhada por uma gargalhada! – prega Nietzsche. Logo ele, um sabedor que somente a alegria é o melhor remédio para que o homem possa suportar sua trágica existência.

Contudo, não creio que devamos levar ao pé da letra o ditado.

Isso seria uma enorme consideração com a brincadeira em si. Afinal, brincadeira tem limite. Quem não brinca não vive. Quem não tem a alegria dentro de si não pode ser uma pessoa feliz. Dentro do permitido circo trágico.

A brincadeira é o oxigênio das emoções humanas.

Nietzsche, em sua dor quase eterna, em vida, nunca deixou de fazer suas brincadeiras, algumas ferinas, mas sem pretensão de verdades absolutas, porque era um homem que abominava as convicções.

(...) foi o próprio Deus que ao fim de sua obra se disfarçou de serpente indo se deitar sob a árvore do conhecimento: assim ele se restabeleceu do fato de ser Deus... Ele havia feito tudo demasiadamente belo... Brincava, infantilmente, o filósofo.

O que agrava a existência humana nestes dias são as desconfianças, a selvageria do corre-corre que não permite gentilezas. Ou pelo menos desconfiamos delas. O mundo criou regras sob um capitalismo que ainda permanece selvagem em sua essência e arrasa vidas quando colide, grosseiramente, com as emoções.

Não por outra coisa, afirmo: para viver sob o capitalismo é necessário socializar as emoções.

Nele, é proibido brincar, parece.

As pessoas vivem dizendo verdades e mentiras com uma seriedade invejável. Portanto, não venham utilizar a brincadeira nessa concupiscência de sua vaidade sem sentido, e, muito menos, fazer da brincadeira um instrumento da sua maldade. Principalmente isso.

Que morram, pois, os que não sabem brincar! Pelo menos assim, somente teríamos crianças no mundo. As crianças brincam de verdade e seus olhos espelham a diversão feliz e inata da brincadeira pueril. Com seriedade.

Brinquemos em comum, crianças, adultos e velhos, numa ciranda enorme, com as mãos dadas e festejemos a alegria de viver, apesar da ignomínia humana. Que os homens jamais desaprendam que nunca se passa da hora de brincar!

Assim seremos mais gentis um com o outro.

Culpamos as pessoas das quais não gostamos pelas gentilezas que nos demonstram. Elogiamos ou criticamos de acordo com a maior oportunidade que o elogio ou a crítica oferecem para fazer brilhar a nossa capacidade de julgamento, escreveu Nietzsche, que completa: em certas pessoas, o alegrar-se com um elogio, é apenas uma delicadeza do coração - e precisamente o contrário de uma vaidade do espírito.

Podemos sim colocar a verdade onde quisermos - brincando ou taciturnamente - o que não podemos é deixar de por a verdade em nossa vida, como princípio; não podemos deixar de brincar sempre que pudermos e, principalmente, não podemos deixar de nos alegrar como norma de ser feliz.

O filósofo, como o entendo, é um explosivo terrível na presença do qual tudo está em perigo. Ao afirmar tais palavras, nosso filósofo se coloca acima dessa querela, e aposta que o pensador é uma metamorfose ambulante – como diria Raul Seixas – prestes a explodir, seja na brincadeira ou no que seja vero.

Por isso Nietzsche se dizia uma dinamite.

Ora, as brincadeiras embutidas de críticas (ou “verdades”, como queiram) apenas tem um sentido: emitir uma opinião covarde. Quem não tem confiança em si usa de maneira enviesada para se expressar. A covardia é dupla quando se usa a brincadeira.

Se temos que mudar de opinião a respeito de alguém levamos-lhe muito a mal o incômodo que assim nos causa. Essa é a explicação de Nietzsche para o caso. Nós, nos autodenunciamos quando mudamos o pensamento sobre o outrem.

A brincadeira disfarça. É uma desgraça.

Tudo é uma questão de valores. Seguir o que a sociedade podre exala de podridão é a lei. Moralidade é apenas o invólucro que o poder usa para saciar sua tara por mais poder.

Cobrem com falsa decência a indecência de seus valores.

Ter-se vergonha da sua imoralidade: é um degrau na escada em cujo extremo se tem também vergonha da nossa moralidade. Eis o que revela o profeta que desmistificou os valores. Mesmo assim, a podridão fede de longe.

E o homem comum se sujeita isso.

E faz da brincadeira um instrumento de sua submissão moral e intelectual