quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Vida de Filósofo

Nobre compadre Stélio,

A vida enquanto vida é sempre generosa conosco. Li atentamente suas notícias.

Encanta-me a tua leveza e tranquilidade em tratar da tua vida.

As reclamações morais existirão; pois, afinal, o que seria do homem se não existisse a ética?

A tua coragem é fantástica. É cruel e real.

Vontada de potência neles, ou seja, nos pessimistas. A vida é sempre boa. Passado é passado, o que realmente importa é a beleza do pulsar do instante, e isso tu captas muito bem!

Sejamos alegres, visto que, os grandes homens sempre apostaram na alegria que brota da alma e não em tagarelices.

A filosofia nos dá a medida exata para a gente perceber o quanto vale uma vida.

A filosofia do Acre precisa de nossas reflexões.

O mundo precisa nos conhecer e a vida nos agradece por contribuirmos com ela.

Saudações filosóficas!

Do seu eterno admirador e compadre.

Guilherme da Silva Cunha

Filósofo

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Antes dos homens madrugam as palavras


COMPADRE  Guilherme - A madrugada ainda me consome. Reli o noticiário político do jornal Folha de São Paulo que havia comprado no shopping, cansando-me. Entediado e arfante religuei o net book, para ver os -mails. De cara li a primeira mensagem:

"Sobreviva. Volte logo, pois agora você é parte da minha vida. Sua alma encantou a minha..

Era de uma pessoa especial e que me atendera com aquela humanidade rara nos dias em que vige, com severidade, a alma impessoal do capitalismo selvagem. Essa pessoa, Guilherme, não deixou de revelar algumas daquelas qualidades que tanto a filosofia nos ensina a admirar.

Enquanto impossibilitado da apresentação necessári e de preferência em uma confraternização em seu chalé - degustando a salada fresca da comadre e sob a bagunça do Nísio – vamos nos referir a esta pessoas apenas como SS.

Que fique claro, entretanto, que não se trata do Sílvio Santos.

- "Acho que voltarei. Estarei em São Paulo por tempo indefinido, a partir deste sábado, e, na segunda-feira, pela manhã farei o cateterismo. Em seguida eles decidirão o tipo de intervenção: angioplastia ou safena. O que decidirão julgando ser o melhor, farei. Terminei o romance. Gostaria muito de escrever outra obra. uma boa história que alegrasse e divertisse ou levasse às pessoas a refletirem. Contudo, confesso, seja lá o que acontecer, sinto-me um homem feliz". - Respondi

Tenho pensado muito compadre em relação a esse infarto. Acho que ele tem um lado positivo: trata-se de uma doença que deixa escancarada que você é o único culpado pelo seu aparreiamento. Por isso acho também que seria por demais justo que o mal somente deveria acometer, pelo menos com mais frequência, às pessoas que vivem a culpar o mundo ou a outrem, por suas desditas.

Em estado de ansiedade e dormidelas intermitentes passei o resto da madrugada, ouvindo a chuva fraca que caía lá fora. O computador, sempre às pernas. Ora mexia no texto do livro, ora abria a caixa de mensagens.  SS escrevera:

- Oi amore. Fico feliz por você ter terminado seu livro.....Isso é, mais um! Em sua cidade deixada para trás, as coisas acontecem. Umas boas, outras ruins , mas vão acontecendo, independente do ciclo da vida.


Quer saber?


Dando seu silencio como assentimento, eis aqui as novas do front: A cidade fervilha! Vejo nas expressões, percebo nos gestos um quê qualquer, diferente. Uma expectativa, recoberta por olhares lânguidos... Como a dizer: - Acredito, contudo....Duvido. Vejo um vai e vem frenético, entretanto, desprovido de garra, entende? Aí me detenho a olhar o que as pupilas escondem e camuflam...


Sabe moço descrente, esse torvelinho de sensações consome muito!


Vou precisar terminar, pois devo lembrar que você, mon ami, se encontra entre o limiar de uma vida para outra, e que assim sendo precisa de introspecção. A sorte sua é que apenas esse músculo - com possibilidades variadas de reparo - é sua limitação.


Imagine se fosse com um que não tivesse como fazer manutenção? Por exemplo... O pau da venta. Desculpe o humor destituído de falso zelo, mas cuido de quem prezo assim, francamente.


Cuide-se, não por você somente, mas pelos que aind]a não te conhecem .Cuide-se, pois, ainda não aprendi a te conhecer. E isso, definitivamente você não pode me tirar!!!

Um bom texto sempre carece de resposta.


Seria um crime não fazê-lo. Hoje, porém, a tristeza me assolou, não pelas safenas necessárias, após o cateterismo desta manhã, mas, por ouvir a voz de minha mãe, ao telefone, culpando-me, condenando-me por entristecê-los neste momento. A intervenção cirúrgica, aqui no Incor, onde estou internado, compadre Guilherme, não me amedronta, mas dá um fiozinho de caganeira do caralho! Vim para a consulta e enfartei diante da médica.


O cateterismo feito logo após o pronto-atendimento no setor de Emergência revelou a desgraceira: tá tudo entupido (acho que até o pau da venta). Não tenho medo desses desafios, nem da morte. Na verdade, até gostaria de ir embora antes dos que amo.


Contudo, é chato ficar em hospital. Mas, é assim mesmo: sempre acreditei que é pau pra comer sabão, e pau pra saber que sabão não se come. Manterei informações, enquanto me permitirem usar o net book.


Aliás, compadre Guilherme, a maior parte desta explicação remeti para SS que assim respondera: Stélio, resolvi aproveitar que ainda te permitem digitar e, cá estou eu. Se sua UTI aí for razoável, você estará em um leito reclinável, com janelas oclusas e sem ver a cor do dia, por isso serei seus olhos no mundo externo .


Descrevo assim, a você rufião, as mazelas que presencio e como fundo moral de toda boa fábula, ao término dessa, você estará dando graças por ter, inclusive o pau da venta para estar obstruído. Hoje, assim que o dia se fez claro e quando ainda restava um pouco do frescor da noite pude, inadvertidamente, perceber a quanta progride a nossa humanidade.


O que te faria parar e pensar? Um sorriso desprovido de dentes, todavia repleto de meiguice? Um esbarrão seguido do mais gentil pedido de desculpas? Uma flor? (essa foi piegas ao extremo)


Pois, o que me fez refletir sobre as passadas que damos em prol da nossa evolução não se encaixa em nada tão elementar, caro Watson purusniano. Detive-me, posto que não no ruim, antes sim, na promessa de dias mais promissores.


Acredito que você vai sair desse macabro nicho branco e fresco, e dividirá com os que agora contemplo o rubor de face, o suor a descer pelo colarinho e agonia de não ter um rio de águas claras e frias, para nos apaziguar os ânimos (portanto, moço de família, cure-se!) .


Acho que não te contaram, mas a equipe só faz a parte dela, sendo que o resto depende de sua majestade, aí deitada nesse leito (que permite muito mais que ficar deitado), por exemplo, se aí perto tiver uma residente que tenha um pouco de massa cinzenta e frisson sexual, e se deixe levar pela sua lábia.entendeu?


Mas, se assim não o for, que tal se dedicar ao conhecimento do sexo tântrico? Pode ser uma boa distração, pois autocomiseração definitivamente não se encaixa no seu epitáfio.


Presumo que você há de sentir dor, mas quem disse que ficar são é prazeroso? Submeta-se... Concorde.... Questione... Cobre... Mas, acima de tudo:DECIDA.


Não se permita ser, nesse momento crucial, agente passivo e nem se torne uma mula empacada. Como já diziam os antigos :NEM TANTO AO MAR, NEM TANTO À TERRA.

Sabe, compadre Guilherme, apesar da consciência de minha obtusidade nata, surpreendentemente, fiquei com a impressão de entender a mensagem. SS, em Rio Branco, demonstrava um pragmatismo invejável, que parecia perceber o todo, e agindo com invejável eficiência na parte desse mesmo todo.

Não deixei de perceber que era arguta.

O humor, no entanto, para usa como escudo dessa inteligência que faz questão de esconder. Por isso tinha que responder, mesmo com as minhas pieguices. Eis o que escrevi depois de acionar pelo ícone o lugar onde está escrito "responder":

- Acho que deverias escrever mais amiúde. SS,estou ainda na unidade coronáriana do Incor, em preparação para a cirurgia, já que deverão abrir o meu peito na segunda-feira, dia 4. Me pergunto: como podem abrir o que já está dilacerado... Matuto, sozinho, no leito M08, olhando pela janela à prova de som o intenso e silencioso tráfego da paulicéia desvairada. Relembro dos anos que aqui vivi. As residentes aqui, justamente por ser um hospital da USP abundam com suas bundas, porém, são mais acalentadas pelas enfermeiras que a chamam de "doutoras", como elas tivessem PhD em Paris, Londres, Sorbonne ou Harvard. É bonita, a maioria, Falta-lhes, no entanto, a fatal sensualidade da caboclice amazônica que rasga a alma de um homem com tanto fervor, que o prosta, submisso. Nada contra as branquelas, mas tudo a favor da brejeirice da mata.


Faz muito tempo que desisti do sexo sânscrito, tântrico, dândrico, critico, sádico, e todos os exercícios e orgasmos que consolam o corpo. Ainda masturbo-me, entretanto. Faz-me sentir jovem. A cada punheta uma espinha nova no rosto. Quem dera... Ainda estou com o computador, apesar da várias tentativas de me surrupiarem. Tem cada enfermeira que se acha... Primeiro explico que tenho autorização médica para esse privilégio, coisa pré-acordada, pois sem ele, meu tratamento fica mais dificultoso. Quando querem insistir apresento um documento abrindo mão de tudo e se retirando do recinto, tudo assinado por mim e por meu advogado, devidamente registrado em cartório.Apenas uma maneira clara de mandar alguém tomar no cu, embora que, ao final, que acabe tomando no cu seja eu mesmo. Bem tenho uns três dias por aqui, sendo visitado duas vezes ao dia por minha irmã. Muito zelosa. Minha filhar chega de Goiânia na sexta, assim ficarei melhor, mas não deixe de brindar-me com sua alegria, seu carinho especial e seu texto espirituoso. Axé.

Agora vou tentar dormir, enquanto os carros se enfileiram pela Oscar Freire... Lá, longe.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

São Paulo, 26 de setembro de 2010.



Compadre Guilherme,

A Paulicéia Desvairadaminha amanheceu mais do que típica neste domingo: fria e salpicando sua garoa em rostos indistintos, que se aventuravam em busca de lugares aconchegantes para passar o tempo. Inclusive, no meu e de Rosângela, que -  acompanha-me nesta desdita - fomos parar no shopping mais próximo de onde estamos alojados, uma casinha na Sílvio Sacramento, em Pinheiros, com facilidade de acesso ao Instituto do Coração, o Incor, meu destino almejado.

Por questão de comodidade esse bairro é o ideal. Daí não ser possível ficar hospedado em casa de nosso irmão caçula, o Rossini, que mora e trabalha na Zona Oeste da cidade. Ele é professor e fez uma belíssima dissertação de Mestrado sobro o nosso querido Hélio Melo.

Temos aqui, Guilherme, um filósofo candidto a deputado federal. Trata-se de Gabriel Chalita.

Dormimos bem, pois de igual mourejo foi a viagem de Rio Branco até Sampa.

Como testemunhastes, a semana para mim foi muito penosa, realmente sofrida. "Agora posso me gabar que tive o primeiro infarto". Essa frase cairia muito bem no humor do Élson Sombreira, digo, Dantas. Mas, a verdade é que o primeiro infarto a gente nunca esquece.

E como dói.

Assim, compadre, juntamente com minha irmã perdi o dia de domingo a passos lentos, numa galeria paulistana onde almocei e adquiri um agasalho, já que sou desprevenido quanto ao clima daqui, daí e alhures. Aliás, meu fardamento sempre foi camiseta, jeans a alpargatas. Se bem que desta vez estou usando um tênis. Coisa rara, claro. O interessante Guilherme, é que se trata do tênis que me destes. Uso-o em tua homenagem. E, por tabela, à comadre, Nísio e Sofia, meu segundo exército.

A eles, membros de meu contingente amado, o meu beijo saudoso. A comadre me orgulha muito pelas responsabilidades que assume; a Sofia a destruir corações, enquanto o Nísio já disse a que veio: fala o que quer e o que lhe dá na telha. Bruto ou angelical, ele exala amor. Pelos poros. Será um grande guerreiro, sem dúvida, puramente amazônico.

Uma sina interessante surpreendeu-me.

E foi motivo da conversa do domingo. A casa que me hospeda hoje na Sílvio Sacramento – uma ruazinha estreita de paralelepípedos – entre a Cardeal Arcoverde e a Teodoro Sampaio, compadre, foi onde me acolheram na madrugada de 28 de novembro de 1983 - depois de participar, com um grupo de estudantes de Ribeirão Preto - do primeiro comício do movimento Diretas, Já!

Foi no dia 27 de novembro de 1983, que quinze mil pessoas se reuniram no comício organizado pelo PT na Praça Charles Miller, em frente do estádio do Pacaembu, exigindo o retorno às eleições diretas para presidente. Lula surgiu politicamente nesse comício, deixando de ser apenas um simples sindicalista do ABC paulista.

Conforme se encontra fartamente registrado, ali era o início da campanha das Diretas Já!, a maior mobilização política e popular da história brasileira que, se não alcançou seus objetivos de imediato, ajudou profundamente a reconstruir a democracia no Brasil. A idéia de criar um movimento a favor de eleições diretas foi lançada, em 1983, pelo então senador Teotônio Vilela no programa Canal Livre da TV Bandeirantes.

A manifestação contou com representantes de diversas correntes políticas e de pensamento, unidas pelo desejo de eleições diretas para presidente da República. Muitos políticos da situação, sensíveis às suas bases, também formaram um bloco de dissidência no Partido Democrático Social (PDS), ex-Arena, o partido situacionista. Pesquisando, enriqueço esta carta a meu compadre com mais informações: a essa altura, a perda de prestígio do regime militar junto à população era grande. Militares de baixo escalão, com seus salários corroídos pela inflação, começavam a pressionar seus comandantes - que também estavam descontentes.

Lideranças - O movimento agregou diversos setores da sociedade brasileira. Participaram inúmeros partidos políticos de oposição ao regime ditatorial, além de lideranças sindicais, civis, artísticas, estudantis e jornalísticas. Dentre os políticos, destacaram-se Tancredo Neves, Leonel Brizola, Miguel Arraes, José Richa, Ulysses Guimarães, André Franco Montoro, Dante de Oliveira, Mário Covas, Gérson Camata, Orestes Quércia, Carlos Bandeirense Mirandópolis, Luiz Inácio Lula da Silva, Eduardo Suplicy, Roberto Freire, Fernando Henrique Cardoso e muitos outros.

A cantora paraense Fafá de Belém participou ativamente no movimento das Diretas Já a partir do comício de 16 de Abril de 1984. Fafá se apresentou gratuitamente em diversos comícios e passeatas, cantando de forma magistral e muito original, de entre outros temas, o "Hino Nacional Brasileiro", gravado no seu álbum Aprendizes da Esperança, lançado no ano seguinte. A célebre interpretação, diante das câmeras, para uma multidão que clamava pela redemocratização do país, foi muito contestada pela Justiça, mas ao mesmo tempo, foi ovacionada e aclamada pelo público.

A emenda - Dante de Oliveira, eleito deputado federal em 1982 pelo PMDB, assumiu em 1 de janeiro de 1983 e desde então começou a coletar as assinaturas para apresentar o projeto de emenda constitucional que estabelecia eleições diretas (170 assinaturas de deputados e 23 de senadores). No dia 2 de março de 1983 finalmente apresentou a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) n° 5.

O Acre não ficou de fora desse movimento e relizou um ato, em fevereiro de 1984 que reuniu mais de sete mil pessoas, um número significativo para a nossa terra.  Como morava em Ribeirão Preto, nesse período, participei do movimento fora de meu ntorrão acreano.

Em 25 de abril de 1984, sob grande expectativa dos brasileiros, a emenda das eleições diretas foi votada, obtendo 298 votos a favor, 65 contra e 3 abstenções. Devido a uma manobra de políticos aliados ao regime, não compareceram 112 deputados ao plenário da Câmara dos Deputados no dia da votação. A emenda foi rejeitada por não alcançar o número mínimo de votos para a sua aprovação.

Nesta época tive também o privilégio de conhecer Henfil, que se envolvia com cinema, teatro, televisão (trabalhou na Rede Globo, como redator do extinto programa TV Mulher) e literatura, mas ficou marcado mesmo por sua atuação nos movimentos sociais e políticos brasileiros. Ele tentou seguir carreira nos Estados Unidos, mas não teve lugar nos tradicionais jornais estadunidenses, sendo renegado a publicações underground. Ele então retornou ao Brasil, publicando mais um livro. Após uma transfusão de sangue acabou contraindo o vírus da AIDS. Ele faleceu vítima das complicações da doença no auge de sua carreira, com seu trabalho aparecendo nas principais revistas brasileiras.

Mas, meu bom compadre, manterei contato. E notícias.

Um abraço.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Sobre Vírgulas




Muito bonita a campanha dos 100 anos da ABI

(Associação Brasileira de Imprensa).



Vírgula pode ser uma pausa... ou não.

Não, espere.

Não espere..



Ela pode sumir com seu dinheiro.

23,4.

2,34.



Pode criar heróis..

Isso só, ele resolve.

Isso só ele resolve.



Ela pode ser a solução.

Vamos perder, nada foi resolvido.

Vamos perder nada, foi resolvido.



A vírgula muda uma opinião.

Não queremos saber.

Não, queremos saber.



A vírgula pode condenar ou salvar.

Não tenha clemência!

Não, tenha clemência!



Uma vírgula muda tudo.

ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da sua informação.



Detalhes Adicionais: COLOQUE UMA VÍRGULA NA SEGUINTE FRASE:

SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA.

* Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de MULHER...

* Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM...

sábado, 7 de agosto de 2010

A visão política de Aristóteles

Sabemos que a maioria dos pensadores, entre os que figuram como expoentes do conhecimento na antiguidade, sem dúvida, formulou uma filosofia política, cada um à sua maneira, evidentemente. E quando falamos de Aristóteles, como não poderia deixar de ser, a coisa não foi diferente. Aristóteles, a rigor, foi o primeiro filósofo que pensou a política como uma ciência, ou seja, ele elaborou seu pensamento sob um ponto de vista profundamente científico. Nesse quesito, inclusive, é bom salientar que ele também agiu assim em relação a todos os temas que abordou em seus estudos. Aliás, entre as ciências alvos da preocupação do fundador do Liceu, duas, pelo menos, ele chamou de “práticas”. Nesse campo ele definiu justamente a ética e a política como as mais importantes disciplinas da própria filosofia, pois eram as ciências das coisas humanas. E não é por outra coisa que, encontramos as respostas de Aristóteles aos problemas sociais da humanidade, em Política, seu tratado sobre o tema que, surpreendentemente, ainda hoje se constitui num clássico da filosofia política. Para muitos estudiosos da obra aristotélica, os oitos livros em que se compõe o tratado, tanto nos textos considerados “realistas” como “idealistas”, e ainda as preciosas informações históricas e as análises sociológicas, se constituem também – e principalmente – numa verdadeira e impressionante “antropologia filosófica”. Se, na visão platônica, o conhecimento era um corpo indivisível, cabal e único, além de posse exclusiva do filósofo, dando apenas a este a capacidade de governar a cidade, para Aristóteles a coisa era bem diferente. Por diferenciar as ciências em teóricas e práticas, Aristóteles também fazia alusão ao homem sábio e ao homem prudente, dando a cada um deles, funções mais apropriadas, ou seja, o sábio cuidaria mais dos problemas teóricos, enquanto que o prudente atuaria com mais desenvoltura no domínio da ação. Assim, estabelecendo um confronto direto com seu mestre, Aristóteles, por conseqüência de sua proposição, então, concede, não ao filósofo, mas ao legislador (nomothéte), o principal papel no domínio político. Caberá, portanto, ao legislador, segundo Aristóteles, determinar a forma de constituição que melhor convém a uma determinada cidade, como também quais as instituições mais necessárias para reger o grupo social ali estabelecido. É que o estagirita concebia que se o legislador é bom, as leis serão boas, e se estas assim o são, a vida será virtuosa e terá como efeito os bons costumes, já que as leis justas instalam a virtude nos habitantes da cidade. Mas isto não significa dizer que apenas uma forma legislativa é válida para todas as cidades. Aliás, é bom ressaltar que esse é um dos pontos fundamentais da concepção política aristotélica e, claro, mais um desacordo fundamental – e frontal - com o que pensava Platão. A verdade é que a virtude é para ele um valor inestimável. Fica claro que o processo político deve ser conduzido por homens virtuosos, prudentes e legisladores, capazes de governar uma cidade, única e exclusivamente, levando em consideração o interesse geral, e jamais os particulares. O governante não deve tirar proveito pessoal, nem para sua família, nem para a sua classe social. Aristóteles afirma que quando os ricos governam, e o fazem em seus próprios benefícios, o governo tem um caráter oligárquico. Ele também denomina a democracia o governo das massas que defendem seus interesses. Entretanto, para o pensador grego em questão, o pior dos desvios entre todos os sistemas políticos, sem dúvida, é a tirania. Esta, segundo a definição estabelecida por ele, somente acontece quando um indivíduo sobrepõe seu interesse pessoal sobre todos os demais. Trata-se do governo que defende, principalmente, o interesse do próprio governante. Para evitar anomalias no sistema político ele defende que a constituição seja a “alma da cidade”, entretanto, ressalta que as leis somente serão boas e úteis para um povo se fizeram parte de seu estado histórico e espiritual. As leis podem, enfim, serem mudadas quando degradadas e aperfeiçoadas através do consenso. O grande legislador, para Aristóteles, possui a “virtude política”. Trata-se de um homem que atua como uma espécie de conduta patriarcal, que tem a cidade como sua família. Por isso considera que seja justo um homem dessa estirpe exercer o poder e reinar sobre os demais. Contudo, o rei somente poderá ser considerado virtuoso, se governa em benefício de todos e rejeitar qualquer tendência para a tirania. O bom rei educa seus súditos para que eles também sejam virtuosos e se associem ao poder, evitando que a constituição da cidade tenha um caráter profundamente monárquico. Assim, o rei pode diminuir o seu poder e estabelecer uma aristocracia, bem no sentido etimológico do termo, ou seja, um governo dos melhores. Esse processo – o de ir paulatinamente agregando cada vez mais virtuosos cidadãos ao governo, ao centro do poder – deve desembocar num sistema que Aristóteles denomina de politeia, algo que pode ser traduzido como um “governo constitucional”. A formação constitucional do governo, entretanto, visa garantir que a cidade cumpra sua principal característica que é dar a cada cidadão, a cada família, no contexto social, a satisfação e a felicidade, quesitos primordiais na política aristotélica. Resulta dessa preocupação a seguinte afirmação de Aristóteles: “A Cidade tem como objetivo satisfazer as necessidades dos homens. Os homens formam as Cidades para assegurar uma subsistência básica; todavia, o objetivo último da Cidade é promover a vida boa. Na hierarquia da natureza, a cidade precede a família e o indivíduo. Ela é fundada pelo impulso natural do homem para a associação política”. (ARISTÓTELES, 2006, p. 35) Mas, para este pensador grego, a relação cidade/cidadão possui um intrínseco caráter de reciprocidade no que tange a governabilidade, já que nos ensina que (2006, p. 39), “o bom cidadão pode não ser um homem bom; o bom cidadão é aquele que presta bons serviços à sua Cidade”. Devemos ainda ressaltar que, também diferentemente de Platão, o papel do filósofo em uma cidade pensada politicamente por Aristóteles, não tem a mesma relevância, ou seja, não está destinado a governar porque detém a sabedoria. Na escola política aristotélica, o filósofo apenas pode contribuir, através de seu conhecimento e de sua experiência, para o desenvolvimento da virtude entre os homens e, mais essencialmente, na formação dos legisladores destinados, estes sim, aos mais diversos governos das cidades. Assim, os homens sábios que devem governar são os legisladores. Mas a visão deles, contudo, não era a de homens teóricos, mas a de práticos, já que suas funções se enquadravam na praticidade do governo. No Liceu, Aristóteles ensinava conhecimentos abrangentes que iam desde o direito, psicologia, matemática, história e música, entre outras disciplinas, e tais matérias encontraram aplicativos na gestão da cidade. Todos estes ensinamentos preparam o legislador para o governo. Entretanto, em Aristóteles, um cheiro de Platão, mínimo que seja, ainda é percebido quando os filósofos podem interceder como uma espécie de conselheiros, pois são ouvidos, inclusive, pelos legisladores. Referimo-nos a Platão, porque este, de certo modo, indicou que a Academia devia atuar como uma espécie de grande conselho, uma espécie de gabinete a ser consultado em situações especiais. Mas, na elaboração de seu pensamento político, Aristóteles foi mais ousado. A grande inovação aristotélica, a nosso ver, se apresenta no que hoje os pensadores contemporâneos chamam de economia, essa ciência que se apresenta de forma contundente, no mercado globalizado de nosso tempo. Em sua obra ele trata de assuntos como valor de uso, de troca ou de venda. Chega mesmo a citar exemplos, como é o caso do valor de um sapato que vale de uma maneira pelo seu uso, e de outro se destinado à troca ou venda. Sua ótica, apesar de valorativa de produtos, não podemos esquecer, sempre sobrepunha o gerenciamento político ao econômico. Nesse sentido, ele foi considerado ingênuo em apontar tal primazia. Aliás, ele foi rigorosamente enfático nessa questão, e chegou mesmo a escrever que (2006, p. 36) “não necessitamos daquela forma de finanças que acumula riqueza como um fim em si mesmo. Este é um tipo artificial de finanças. Ela foi feita possível pela invenção da cunhagem de dinheiro”. Para nós, no entanto, é evidente que a crítica a ele pode ser excessiva, já que sua idéia de política não incluía vaticinar o capitalismo, mas, sobretudo, harmonizar os homens em uma comunidade. Sua preocupação que pode ser considerada mais primordial, sem dúvida, foi considerar que a vida política, a própria convivência entre os homens - que ele considerava como animais políticos -, era desde o início, essencialmente no campo da ética. E, nesse sentido, ele ansiava que a cidade e os homens pudessem desenvolver a virtude, que os homens crescessem como cidadãos prestadores de serviços, e que, tendo as suas necessidades elementares supridas, pudessem, enfim, serem felizes. Aristóteles, então, pensou a política como “a arte da felicidade”. Para garantir a felicidade dos cidadãos, não podemos esquecer, Aristóteles prevê que o bom legislador deve ser possuidor de experiência e ser perspicaz, ter boa intuição e vivacidade no que concerne ao espírito. E isso ele não pode aprender teoricamente, mas através de sua própria vivência. Pensando assim ele quer garantir que o legislador esteja versado no que denomina como “coisas humanas”, que exige certas habilidades nas ciências práticas, e assim poder responder a contento na esfera dessas tais “coisas humanas”. Mas, o que o filósofo quer dizer com isso? Simplesmente que o responsável pelo governo de uma cidade, no caso o legislador, deve lidar com tudo aquilo que permeia o espírito humano, como por exemplo, em relação a vontade e a liberdade dos homens. Mas, quando reconhecemos essa preocupação de Aristóteles, compreendemos também que nesse exato momento de seu pensamento político, ele está tratando de uma antropologia social e política. E elaborou tão ineditamente o tema que transformou as questões sociais em objetos de estudos científicos. Esta ousadia é seu grande mérito. Ao exigir do legislador uma experiência mundana, há uma valorização da própria atividade humana, do existir dos cidadãos, principalmente daqueles que possam gerenciar as “coisas do mundo”. Quem - como legislador - se habilita para exercer o poder, deve demonstrar tal experiência e, consequentemente, resolver as mais complicadas questões que envolvem as complexas teias do comportamento humano. E sempre com o objetivo principal da vida política: satisfazer as necessidades dos cidadãos. Como, porém, Aristóteles trata ou conceitua o poder? Ele distingue várias formas de poder. Afirma, inclusive, que o poder tem uma diversidade de espécies. Ou formas diferenciadas do poder político, que é exercido desde o âmbito doméstico até as atividades sociais e comunitárias. Chega mesmo a declarar que o poder é exercido numa espécie de cadeia que se inicia numa base familiar, se estende pelo interesse comercial e chega até ao poder político propriamente dito. E exemplifica: o poder do dono sobre o escravo, do marido sobre a mulher, dos pais sobre os filhos, do rei sobre os que são considerados súditos, enfim, como ele próprio defendia, do legislador, ou magistrado, sobre os cidadãos. E essa cadeia deve funcionar harmonicamente. O poder político, para Aristóteles, entretanto, não deve ocorrer através da opressão, subjugação de um povo sobre outro, impondo a escravatura e a tirania, mas por meio de uma delegação consensual e representativa. Então aqui, com a representatividade do poder político, temos mais uma inovação: pela primeira vez na história um pensador expõe de maneira científica, o que seja o poder político, e exatamente naquilo que lhe é mais essencial: o seu sentido real. Ora, Aristóteles não reconhecia como legítimo o poder opressivo, de subjugação, como, por exemplo, o de certos grupos bárbaros, onde a relação era de escravatura. Ele fazia essa distinção no poder político que, para ele, deveria ser exercido sob uma delegação. Nesse sentido ele fazia valer o termo “política”, que vem de “polis”, ou seja, “cidade”. Assim, de maneira inédita, conseguiu expor, demonstrar, de forma diferenciada, uma verdadeira representação científica quando em se tratando da questão política. Mesmo quando disserta sobre diferentes regimes políticos, Aristóteles faz valer seu método científico. Sua narrativa, contudo, é profundamente teórica. Ele examina todas as constituições possíveis para apontar a melhor forma de poder político. Em toda a sua análise, entretanto, ele distingue sempre três partes comuns que são, ou correspondem ao que chamamos hoje de executivo, legislativo e judiciário. Nesse caso ele avalia as funções, a quantidade de cidadãos que as ocupam e o tempo de duração desse exercício. Sem querer ele pode ter indicado a idéia daquilo que, num futuro distante, se chamaria de “mandato político”. Depois dessa minuciosa análise em seus livros centrais que trata da questão política, e ter mostrado aos legisladores a grande dimensão das “coisas humanas”, Aristóteles espera que estes estejam suficientemente capacitados as mais diversas situações. Um regime está mal adaptado, em crise, segundo Aristóteles, se um número diminuto de cidadãos, por mais virtuosos que sejam, mantém o poder político de forma privilegiada, fazendo dele um monopólio em seu benefício. Ao manter o poder de forma restrita, esse grupo de pessoas acaba por alijar das instâncias diretivas da cidade a maior parte dos cidadãos, o que torna o regime mal adaptado e desvirtuado de seu principal objetivo: a felicidade de todos. Tal procedimento é comum quando se trata de regime aristocrático. E nesse caso se faz necessário mudar a constituição da cidade, saindo do comando aristocrático, para um regime mais popular, alterando a constituição. Isso significa dizer que, para Aristóteles, as instituições são desvirtuadas e funcionam de maneira errônea quando não estão a serviço de todos os membros da cidade. Quando uma constituição é mal adaptada, fatalmente, as instituições também não funcionarão a contento. E quando isso acontece faz-se necessário, então, mudar as leis que regem a cidade, mudando, inclusive, o regime de governo, deixando de lado o sistema aristocrático para um sistema que intere a maioria, de caráter mais popular. Pode parecer estranho, mas de alguma maneira, Aristóteles ainda tenta dar uma esperança de converter o tirano para o caminho da virtude política, e faze-lo governar com as virtudes do bom legislador. Ele caracteriza a tirania como algo semelhante às ditaduras como as conhecemos atualmente. Diz que o tirano não deve governar porque humilha os cidadãos, submete-os ao medo e corrompe as relações sociais e violas todos os direitos individuais. Por isso ver apenas dois caminhos para o tirano: ou se torna cada vez mais e mais tirano baseando seu governo quase que exclusivamente na opressão, ou, o que é surpreendente em Aristóteles, redirecionar seu governo para as leis justas e virtuosas, se tornando um verdadeiro rei. De forma progressiva, isso pode ser possível. Pelo menos é nisso em que acredita o próprio Aristóteles. Essa crença, entretanto, não é mera ingenuidade de um bom espírito. Ao pensar em política ele criou uma teoria sobre tudo que o existia no mundo antigo. Sua análise vai desde a escravatura, comum em várias partes da antiguidade, até o funcionamento das cidades e, nesse quesito, inovou, e inovou com maestria, pois foi o primeiro a ter a cidade como objeto da ciência política. Aristóteles, assim, fundamenta suas idéias na antropologia política, e como primeiro pensador da política, analisa as instituições, seu funcionamento, objetivos e constituições. Contudo, sempre manteve uma idéia fixa: a política deve levar a felicidade ao homem. Caso contrário, não será digna deste nome.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O pensamento político de Platão



Desnecessário é reafirmar a importância de Platão para a ciência política de todos os tempos, inclusive para o pensamento moderno. Sobre ele, aliás, o pensador Percy Shelley disse que foi o único a colocar que o estado deve ser governado não pelo mais rico, pelo mais ambicioso, forte ou astuto, e sim, pelo mais sábio.
Para ele, um dos problemas mais cruciais na questão política, é que todos os homens se acham extremamente capazes de exercer, com a devida competência, a prática dessa ciência, ou seja, todos se sentem aptos a fazer política, sem entender que se trata de uma arte especial e destinada a poucos.
E como arte especial ele a distingue em três tipos, a saber: a auxiliar, mais técnica, como o trabalho dos artesãos, etc.; a produtora, como a da tecelagem, etc.; e a do saber, para conduzir os homens, que seria a política propriamente dita, e que é superior a todas as outras. E aqui temos, então, um dos conceitos fundamentais da teoria política platônica.
Para Platão, o político deve possuir qualidades especiais, habilidades seguras e conhecimentos essenciais. O político deve encontrar o equilíbrio entre os fortes e poderosos e os mais fracos e indefesos. E essa tarefa, decididamente, não é para qualquer um.
Quem, entretanto, pode ser este dirigente político? Quem pode estar conscientemente habilitado para o exercício desta arte? Para responder a estas indagações nosso pensador achou por bem estabelecer uma tripartite escala de princípios, restringindo funções a cada grupo determinado.
De início são eliminados os escravos, fazendo, em seguida, algumas limitações à grande maioria dos homens considerados livres, os chamados cidadãos em geral, desqualificando-os para a arte de governar, já que estes estão mais aptos para o plantio, o comércio e a prestação de serviços.
É justamente entre os setores mais intelectualizados da cidade que Platão busca os mais capazes para o exercício do poder, da arte de governar e fazer política. Nesse caso, Platão incluía os magistrados, os sacerdotes e os sábios.
O pensamento político de Platão também observa e descreve as formas em que os regimes políticos se constituem, como por exemplo, o estabelecimento de um poder exercido por apenas um homem, que chama de monarquia quando o soberano se sujeita à legislação, e de tirania, quando o rei exerce o poder de forma autoritária e discriminatória.
Ainda nessa linha de raciocínio, Platão também especifica o regime político de um grupo de homens, que ele achou por bem subdividir em oligarquia e aristocracia. E, por último, ele chega a denominação de um governo de muitos, de uma maioria: a democracia.
Em todos estes regimes, entretanto, Platão identifica uma dualidade de vários graus como a riqueza e a pobreza, a violência e a liberdade, a obediência às leis estabelecidas pelo conjunto da sociedade e a mais completa ausência de regras que estabeleçam uma ordem social que pode levar a anarquia.
É justamente aqui que Platão entra num ponto fundamental de sua teoria política e indaga: qual, entre estes regimes, se constitui na melhor opção para a sociedade? Qual destes é o melhor para o convívio justo entre os homens?
Na verdade – e a rigor – Platão não tem como preocupação central, a forma em que o regime político pode assumir em determinada sociedade, ou seja, a expressão social do poder político em forma de governo. Não, não é este o eixo central de sua teoria. Ele não defende este ou aquele regime. Pior: ele quase que desdenha da importância disso.
Não é por outra coisa que, por meio de um de seus personagens, a monarquia, a tirania, a oligarquia, a aristocracia ou a democracia, para ele, se apresentam como de menor importância se comparadas ao que ele, aí sim, considera fundamental: a arte de conhecer, dominar e exercer a ciência política.
Enfim, o saber é mais importante que o regime político. Isso Platão deixa bem claro.
Fica claro para que é a ciência política é mais importante, ou melhor, o domínio desta é o que mais importa para o governante, independente do regime ou forma de governo. Por isso, a arte de saber governar os homens compete a poucos, compete àqueles que detêm o saber.
É a ciência política que torna um rei competente e justo e respeitado e amado por seus governados. É o domínio desta que credencia um homem ao exercício do poder, e que o torna capaz de se livrar de seus rivais e, também, de se cercar de outros homens igualmente habilitados a participar da vida política.
Por isso é que, independente do regime político, seja democracia, monarquia ou oligarquia, somente o homem sábio pode ser um rei justo, pois somente ele possui a arte de saber governar, de conduzir seu semelhante, de exercer o poder político e de tomar decisões mais acertadas.
Em “A República”, Platão nos dar detalhes preciosos de que este sábio, este homem apto a governar os demais homens, é o filósofo. Este é o homem sábio e o único que possui as qualidades necessárias para o exercício competente e respeitável do poder político. Aliás, ele compara o rei justo com o médico que curando ou não o seu paciente, jamais deixará de ser médico e chamado e tratado como tal. Compara também a um tecelão que sabe coser as vestimentas, unido várias partes, vários extremos, para cobrir a um corpo.
O homem sábio no poder justifica todas as suas ações, mesmo aquelas aparentemente arbitrárias, grosseiras, duras e extremas, como são os casos de mandar executar ou exilar, pois saberá justificar que tais atos visam o bem da maioria, e tem como finalidade maior, a justiça. O mesmo não se poderá dizer das ações de um tirano.
Platão entende ainda que um homem sábio pode até mesmo, em certos casos, governar sem leis, que fará, em nome do bem público, as melhores ações sociais, pois considera esse bem público superior a tudo, inclusive, à própria lei.
Aqui, é bom registrar: é deste ponto do pensamento de Platão que, mais tarde, no Renascimento, Maquiavel tirou as bases de seu argumento que dar sustentação teórica à sua idéia de poder absoluto do príncipe. Contudo, é de salutar importância, registrar também que a pretensão de que “os fins justificam os meios” nada tem a ver com o pensamento platônico.
Entretanto, não podemos também deixar de reconhecer que Platão não morria de amores pelo regime democrático que vigorava na Grécia antiga. E isso ele justificava com a impossibilidade de a maioria dos cidadãos, algum dia, conquistarem o conhecimento e o domínio da ciência política e de todas as suas peculiaridades.
Platão considerava as massas inadequadas para a gerência das cidades.
Nesse ponto detectamos que o poder, na teoria platônica, é algo destinado a uma elite pensante e privilegiado. Por isso ele não admite discutir temas importantes como a arte da navegação, das enfermidades, das leis, das estratégias de guerras, por exemplo, com uma multidão reunida em assembléia. Isso cabe a quem entende dessas faculdades.
Platão critica abertamente algumas práticas da democracia grega, e acusa de sofista todo aquele que se permite tratar de temas especiais com o homem comum. Para ele, se deixar levar por isso, leva a uma nada agradável experiência, pois somente pelo conhecimento profundo da arte política se deverá chegar a uma vida conjunta mais suportável e mais justa.
A inspiração na ciência política, portanto, é superior às próprias leis, embora Platão não prescinda delas de forma essencial. Saber conduzir os homens como um pastor conduz suas ovelhas, carece de habilidade; saber tecer a administração como um tecelão tece uma vestimenta e saber construir princípios comuns como um artesão constrói uma peça, são qualidades inerentes a um rei competente e justo.
Se alguém resiste a esses princípios que são superiores aos próprios regimes ou formas de governos, é porque, para Platão, parte da sociedade se recusa a aceitar a sabedoria como fundamental para se governar. Muitos preferem a força, a esperteza e outras habilidades, que a virtude da ciência.
Mas, enfim, como encontrar este homem sábio, capaz de se tornar um rei justo e amado pelos súditos, como deseja Platão? Com certeza – e ironicamente – este rei não seria, por exemplo, um Sócrates, que o que mais admitia era que nada sabia. Quem seria, então, este ungido? Por acaso teria uma estrela na testa? Onde encontrá-lo?
Homens verdadeiramente sábios não abundam como ervas daninha nas searas do mundo. Encontrá-los, portanto, é procurar agulha em palheiro. Nessa busca, então, é necessário separar o joio do trigo, as impurezas dos metais preciosos, para se chegar ao rei pensante, capaz de distribuir justiça com naturalidade.
Por isso Platão identifica no homem verdadeiramente sábio algumas qualidades capazes de torná-lo um rei competente e, a primeira delas, é justamente ter a capacidade de afastar de si tudo o que for estranho e não condizer com a virtude da ciência política.
Em seguida, o sábio deve discutir com maestria, a estratégia das artes militares e deve conhecer com profundidade a magistratura para praticar a justiça, além de dominar a retórica para saber transmitir a seus súditos os discursos mais eloqüentes e mais elucidativos.
Assim, a estratégia, a magistratura e a oratória, são inerentes à ciência política, embora subordinadas a esta, pois, a decisão de se fazer a guerra é, portanto, superior a estratégia; a arte jurídica subordina-se às leis e o discurso deve obedecer a regra de sua adequação ao momento, já que este não pode ser proferido ao acaso ou a bel prazer.
Por isso é que somente a política, em Platão, deve ser considerada como arte superior.
Ela é a ciência real. Reina sobre todas as demais e comanda toda a sociedade, e seu objetivo é eliminar da cidade o que é nocivo e preservar o que é melhor para todos. Somente a ciência política pode melhor o espírito das coisas.
Como nocivo podemos deduzir claramente: Platão trata dos maus elementos, ou seja, dos que não se enquadram dentro do estabelecido como ordem para o bem comum, ou que se confrontam com o conceito de justiça comumente seguido por todos.
Platão, nesse caso, é implacável e acha que esses elementos devem ser duramente punidos, submetidos a uma prova de fogo e entregues aos homens especializados do governo, sejam eles educadores ou militares, para que possam ser instruídos e enquadrados naquilo que é mais importante para a sociedade: a ordem pública.
Aliás, nesse quesito, o nosso pensador não é nada condescendente, já que diante da impossibilidade ou do puro fracasso de reeducação desses elementos, ele defende que estes sofram “por sentença de pena de morte”, pregando a eliminação deles da sociedade.
E aqui não estamos tratando de um ponto qualquer do pensamento político de Platão. Pelo contrário: trata-se de algo fundamental quanto a governabilidade do rei competente ou rei filósofo, pois é desse ponto que parte a sua significativa ordenação social.
É que quando os maus elementos são afastados, os falsos pretendentes ao trono são preteridos e o rei sábio, ou rei filósofo, é escolhido por depuração, inicia-se então, o maior desafio do governante que, para Platão, é harmonizar os opostos, tarefa nada fácil, mesmo para um homem bastante sapiente.
Uma sociedade - todos sabem - é composta pelos mais diversos tipos de pessoas, e que defendem os mais díspares pensamentos, interesses e estilos de vida; assim, fracos e fortes, nesse caso, devem viver, ou melhor, conviver, sob as mesmas leis, os mesmos princípios éticos, e compartilhar dos mesmos objetivos, sob o abrigo e tutela do mesmo governo.
Ao governante sábio, prudente e justo, então, cabe harmonizar os mais conflitantes interesses, estabelecendo com clareza para todos, os usos e costumes do que seja o bem e o mal, o certo e o errado, o público e o privado, enfim, o justo e o injusto.
Se todos os convivas da cidade possuir essa noção, e concordarem com os princípios legais estabelecidos, é possível que o governo obtenha sucesso, e que a harmonia entre os grupos sociais se completem entre si, mantendo, com sucesso, a governabilidade da cidade.
O governante sábio, por isso, deve ter a habilidade de unir os extremos, assegurando o convívio equilibrado, evitando sempre que influências negativas possam colocar em risco o interesse do todo em detrimento de partes.
Para Platão, enfim, a ciência política tem como tarefa unir, combatendo a separação, cultivar a prudência e a moderação contra a exacerbação, e manter o enérgico contra o claudicante, colocando cada grupo no exercício de sua função e harmonizando todo o corpo da sociedade.
A ciência política é, portanto, arte de domínio exclusivo do estadista filósofo.