sábado, 16 de abril de 2011

Toda brincadeira tem sempre um fundo de verdade





Sorri quando a dor te torturar

E a saudade atormentar

Os teus dias tristonhos vazios



Sorri quando tudo terminar

Quando nada mais restar

Do teu sonho encantador



Sorri quando o sol perder a luz

E sentires uma cruz

Nos teus ombros cansados doridos



Sorri vai mentindo a sua dor

E ao notar que tu sorris

Todo mundo irá supor

Que és feliz



O poema belamente musicado de Charles Chaplin, logo na abertura desta crônica, não deixa dúvida: nem toda brincadeira tem um fundo de verdade, mas existe brincadeira de verdade, ou seja, que é pura brincadeira mesma. Pelo menos é o que podemos apreender como em silogismo: a brincadeira é brincadeira, logo é verdade que é brincadeira.

O que o ditado, afinal, quer dizer é que pode existir alguma crítica, geralmente maledicente, em algumas brincadeiras. O que também ocorre de praxe. Não raro, as pessoas que não tem coragem de desembuchar suas verdades recalcadas ou suas invejas vergonhosas utilizam de subterfúgios para dizer uma coisa ou outra.

Também não é raro costumarmos dizer: quando tudo começou não passava de brincadeiras... Se tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando, falei muitas vezes como um palhaço, mas jamais duvidei da sinceridade da plateia que sorria, afirmou ainda o velho Chaplin.

Brincadeira e verdade, a rigor, não tem nada uma a ver com a outra. Mas não são objetos dissonantes, coisas que, como água e óleo, não se misturam. Estas se misturam, sim.

Tão pouco são implicitamente desassociativas.

Perdido seja para nós aquele dia em que não se dançou nem uma vez! E falsa seja para nós toda a verdade que não tenha sido acompanhada por uma gargalhada! – prega Nietzsche. Logo ele, um sabedor que somente a alegria é o melhor remédio para que o homem possa suportar sua trágica existência.

Contudo, não creio que devamos levar ao pé da letra o ditado.

Isso seria uma enorme consideração com a brincadeira em si. Afinal, brincadeira tem limite. Quem não brinca não vive. Quem não tem a alegria dentro de si não pode ser uma pessoa feliz. Dentro do permitido circo trágico.

A brincadeira é o oxigênio das emoções humanas.

Nietzsche, em sua dor quase eterna, em vida, nunca deixou de fazer suas brincadeiras, algumas ferinas, mas sem pretensão de verdades absolutas, porque era um homem que abominava as convicções.

(...) foi o próprio Deus que ao fim de sua obra se disfarçou de serpente indo se deitar sob a árvore do conhecimento: assim ele se restabeleceu do fato de ser Deus... Ele havia feito tudo demasiadamente belo... Brincava, infantilmente, o filósofo.

O que agrava a existência humana nestes dias são as desconfianças, a selvageria do corre-corre que não permite gentilezas. Ou pelo menos desconfiamos delas. O mundo criou regras sob um capitalismo que ainda permanece selvagem em sua essência e arrasa vidas quando colide, grosseiramente, com as emoções.

Não por outra coisa, afirmo: para viver sob o capitalismo é necessário socializar as emoções.

Nele, é proibido brincar, parece.

As pessoas vivem dizendo verdades e mentiras com uma seriedade invejável. Portanto, não venham utilizar a brincadeira nessa concupiscência de sua vaidade sem sentido, e, muito menos, fazer da brincadeira um instrumento da sua maldade. Principalmente isso.

Que morram, pois, os que não sabem brincar! Pelo menos assim, somente teríamos crianças no mundo. As crianças brincam de verdade e seus olhos espelham a diversão feliz e inata da brincadeira pueril. Com seriedade.

Brinquemos em comum, crianças, adultos e velhos, numa ciranda enorme, com as mãos dadas e festejemos a alegria de viver, apesar da ignomínia humana. Que os homens jamais desaprendam que nunca se passa da hora de brincar!

Assim seremos mais gentis um com o outro.

Culpamos as pessoas das quais não gostamos pelas gentilezas que nos demonstram. Elogiamos ou criticamos de acordo com a maior oportunidade que o elogio ou a crítica oferecem para fazer brilhar a nossa capacidade de julgamento, escreveu Nietzsche, que completa: em certas pessoas, o alegrar-se com um elogio, é apenas uma delicadeza do coração - e precisamente o contrário de uma vaidade do espírito.

Podemos sim colocar a verdade onde quisermos - brincando ou taciturnamente - o que não podemos é deixar de por a verdade em nossa vida, como princípio; não podemos deixar de brincar sempre que pudermos e, principalmente, não podemos deixar de nos alegrar como norma de ser feliz.

O filósofo, como o entendo, é um explosivo terrível na presença do qual tudo está em perigo. Ao afirmar tais palavras, nosso filósofo se coloca acima dessa querela, e aposta que o pensador é uma metamorfose ambulante – como diria Raul Seixas – prestes a explodir, seja na brincadeira ou no que seja vero.

Por isso Nietzsche se dizia uma dinamite.

Ora, as brincadeiras embutidas de críticas (ou “verdades”, como queiram) apenas tem um sentido: emitir uma opinião covarde. Quem não tem confiança em si usa de maneira enviesada para se expressar. A covardia é dupla quando se usa a brincadeira.

Se temos que mudar de opinião a respeito de alguém levamos-lhe muito a mal o incômodo que assim nos causa. Essa é a explicação de Nietzsche para o caso. Nós, nos autodenunciamos quando mudamos o pensamento sobre o outrem.

A brincadeira disfarça. É uma desgraça.

Tudo é uma questão de valores. Seguir o que a sociedade podre exala de podridão é a lei. Moralidade é apenas o invólucro que o poder usa para saciar sua tara por mais poder.

Cobrem com falsa decência a indecência de seus valores.

Ter-se vergonha da sua imoralidade: é um degrau na escada em cujo extremo se tem também vergonha da nossa moralidade. Eis o que revela o profeta que desmistificou os valores. Mesmo assim, a podridão fede de longe.

E o homem comum se sujeita isso.

E faz da brincadeira um instrumento de sua submissão moral e intelectual

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O pior cego é o que não quer ver

Eis um ditado com profunda reflexão filosófica.
Talvez nenhum outro ofereça tantos ângulos de observações como este, que tem uma diversidade de facetas para todos os gostos; modos de apresentações diversificadas e que, mesmo assim, ainda dar de cara com o tipo que, simplesmente, não entende, não quer ver.

O vencido pela obtusidade. Este é o pior cego.

Quanto à origem do ditado, o mais corrente pelos quatro cantos do mundo enquanto visão enciclopédica é uma historieta que se revelou na Idade Média, na Europa, mas propriamente na velha França.

Sempre os franceses... E seus fricotes.

Contam os pesquisadores de abobrinhas que, em 1647, em Nimes, na França, onde existia uma universidade local de criteriosos estudos e grandes avanços, o doutor Vicent de Paul D`Argenrt fez o primeiro transplante de córnea em um aldeão de nome Angel.

Eram meados do século XVII.

Como não poderia deixar de ser, o acontecimento foi uma revolução e um enorme sucesso para a medicina da época. Estranhamente, menos para Angel, o aldeão, que, assim que passou a enxergar ficou horrorizado com o mundo que via.

Talvez esperasse outra coisa do que passou a ver.

Disse ele, por exemplo, que o mundo que imaginava era muito melhor. Mais estranhamente ainda, porém, ele pediu ao cirurgião que arrancasse seus olhos, e que o cegasse novamente. Insistia no pedido, com veemência.

Ele queria voltar a ser cego.

O caso foi acabar no tribunal de Paris e no Vaticano. Angel, o aldeão francês ganhou a causa e entrou para história como o cego que não quis ver. Provou que poderia viver sem ter que ver um mundo tão cruel. E assim ele viveu os restos de seus dias. Sem nada ver.

A história é muito bonita, embora mais pareça uma parábola.

Ela, entretanto, não corresponderia ao ditado, pois, no caso, Angel, o aldeão, não se trataria do pior cego, mas meramente um cego de bom coração que optou em não ver a excrescência humana. Ou então o pior cego pode ter um bom ou um mau coração, não importa, basta apenas desistir de ver, que será o pior.

"O homem procura um princípio em nome do qual possa desprezar o homem. Inventa outro mundo para poder caluniar e sujar este; de fato só capta o nada e faz desse nada um Deus, uma verdade, chamados a julgar e condenar esta existência."

O ensinamento acima, de Nietzsche, ilustra que não interessa o mundo em que vivamos, sempre vamos procurar botar defeito nele, criar deuses, inventar verdades, julgar e condenar as pessoas. Somente enxergamos neste mundo aquilo que desejamos enxergar, aquilo que nos interessa.

Passa-se com o homem o mesmo que com a árvore.

“Quanto mais quer crescer para o alto e para a claridade, tanto mais suas raízes tendem para a terra, para baixo, para a treva, para a profundeza - para o mal”, ilustra o ilustre bigodudo Nietzsche.

Outros opinam que esse tipo de homem que não quer ver, é que nem um avestruz que mete a cabeça no buraco para nada ver. Mas a verdade não é bem assim. Pelo menos sobre o avestruz, bastante injustiçado neste caso.

O avestruz não mete a cabeça no buraco para deixar de ver. Ou se esconder, mas para comer.

Ora, o avestruz é a maior ave do planeta, sempre carregou a fama de ser um animal frágil e medroso. Não é ele que, em desenhos animados ou histórias em quadrinhos, diante de qualquer dificuldade, corre para enterrar a cabeça em um buraco?

Pura lenda.

Esse comportamento, na verdade, não tem nada de covarde, mas é natural do bicho que passa grande parte do seu dia comendo. Os pesquisadores descobriram que, ao meter a cabeça num buraco, o avestruz não faz nada mais do que procurar algum tipo de roedor ou outro vertebrado para matar sua insaciável fome.

Portanto, não o usem como exemplo da cegueira ignorante que é própria do homem. Por isso é que Nietzsche nos alerta sobre essa inteligente questão:

- O homem que vê mal vê sempre menos do que aquilo que há para ver; o homem que ouve mal ouve sempre algo mais do que aquilo que há para ouvir. Assim, fica claro que a ótica humana, por ser subjetiva, é limitada e inconfiável.

Se o aldeão francês se recusou a ver tanta ignomínia sobre a terra, por que não buscou ver o seu oposto? Por que ignorou a arte? O teatro estava lá, a música tocava nos violinos, os versos varavam as madrugadas. Mas ele não quis saber de nada disso. Ele somente enxergou o mal, como mandava seu coração.

Tinha mais era que ficar cego mesmo, o bruto.

"Só como fenômeno estético a existência e o mundo aparecem eternamente justificados." Como fenômeno estético, pois, concebemos a própria arte. E a arte, para Nietzsche ajuda a suportar a vida. Mas, “há espíritos que escurecem suas águas para fazê-las parecer profundas”. Para esse estará sempre à mostra o trágico inerente à existência, sem que seu antídoto, a alegria possa ter a sua vez de ser contemplada, vivida. A alegria, o antídoto, para o trágico.

Cada um somente ver o que lhe convém, por isso Nietzsche afirmou:

- As paisagens insignificantes existem para os grandes paisagistas; as paisagens raras e notáveis são para os pequenos.

Em tudo, o infeliz prefere ver o desarranjo, a nevasca, a tempestade de areia e a inundação sinistra que mata o homem. O homem que não deseja enxergar a vida, apenas ver loucura em tudo, esquecendo-se que “nos indivíduos, a loucura é algo raro, mas nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra”, como observava Nietzsche.

Que enxerguemos, pois, todas as nuances da existência humana.

E que percebamos, por fim, que uma boa dose de loucura faz muito bem para a saúde. O que não faz bem às pessoas, de modo geral, é fazê-las enxergar um mundo imaginário e um deus invisível.

Mas isso, os tolos enxergam. Até o pior cego também, quero crer.

Não é por outra coisa que sou forçado a crer que, a rigor, o pior cego não é só exatamente aquele que não quer ver, mas também aquele que ver o que não existe. E pior, crer.

O cristão, por exemplo.













quarta-feira, 30 de março de 2011

Dizem que o amor é cego...



“O amor é o estado no qual os homens tem mais possibilidade de ver as coisas tal como elas não são”. Pronto! Em apenas uma frase Nietzsche explicou tudo, e deixou bem claro porque o amor, definitivamente, é cego. Simplesmente, o apaixonado ver as coisas por uma lógica diferente, ilógica aos olhos da maioria.

Nietzsche foi cirúrgico, perfeito, sintético, profundo.

O amor envolve corpo e mente, e ambos ficam anestesiados. Somente quem sente o que diz sentir pode sentir verdadeiramente o que sente. Somente quem está apaixonado pode saber o que ver, embora o que veja, não seja, necessariamente, o que todos vemos.

Quem ama vê unicamente.

Vovó dizia que o amor é cego porque quem ama o feio, bonito este lhe parece. Podem dizer o que quiserem, mas não existe feiura na pessoa amada, do ponto de vista daquela que a ama.

O que existe é “uma beleza diferente e exótica” para a pessoa apaixonada.

Mais eloquente sobre o amor, sem dúvida, são os poetas, seja o amor cego ou ligeiramente vesgo, é bom que se diga, somente os vates sabem vaticinar algo que mais se aproxima, verdadeiramente, de uma explicação para esta cegueira. Ou ilusão. Eu mesmo, eu um de meus poemas, assim me declarei:

- te amo tão completamente/que o amor transborda/incessantemente/inundando o coração/é um amor tão louco/ que não se compara/nem ao céu/nem ao oceano/e o universo/é pouco/mas/eu te amo tão profundamente/que caso amor e perfeição/e tudo/tudo pulsa/numa só pulsação.

A visão gigantesca desse amor somente por mim era sentida. Sua dimensão era tudo o que pudesse ser abarcado, e sua profundidade tudo que pudesse ser penetrável. O universo era pouco. O amor que sentia era o mundo inteiro. E era só o que enxergava.

Mas, o que existe além dele?

"Quando amamos, queremos que nossos defeitos permaneçam ocultos, não por vaidade, mas porque o objeto amado não deve sofrer. Sim, aquele que ama desejaria aparecer como um deus, e isto não por vaidade."

Esta é a resposta de Nietzsche.

Mas, a ciência moderna também se envereda por esta trilha perigosa e arrisca com muitas de suas deduções, pesquisas, estudos, sempre em busca de uma resposta para a insanidade e para a cegueira amorosa.

As explicações abundam para todos os gostos.

Alguns destes estudos, por exemplo, explica que quando a pessoa está apaixonada por alguém, seu cérebro desativa estruturas responsáveis pelo julgamento crítico, para nos manter alerta contra ameaças do ambiente.

Pelo menos é isto o que dizem alguns especialistas.

E eles vão mais além: os mecanismos cerebrais que identificam as atitudes dos outros de forma crítica são desativados. Dessa forma o apaixonado dificilmente consegue ver os defeitos e desconfiar da pessoa amada, afirma um neurologista. "O amor torna o cérebro humano literalmente incapaz de prestar atenção em rostos muito bonitos”, explicam os cientistas.

Algum fundo de verdade isso tem, pois, nosso metabolismo é outro quando estamos apaixonados. Parece que pisamos em ovos sem quebrá-los e ficamos nas nuvens sem voar.

Sim, definitivamente, o estado de quem está apaixonado é mágico.

Simplesmente mágico. Magistralmente mágico. Talvez por isso a única explicação ou justificação plausível seja algo da mesma natureza, de igual semelhança: algo mágico, poeticamente mágico. Humanamente mágico.

Ou isso ou continuamos envolvido nesse processo de alquimia.

"Para a maioria, quão pequena é a porção de prazer que basta para fazer a vida agradável!", esbraveja, pois, contundente, o velho Nietzsche, como quem sabe que o amor é apenas um pingo que tempera a imensidão da alma.

Como uma gota de perfume que inebria.

Contudo, devido ao caráter trágico do amor que traz em sua essência toda a sua animalidade, muitos acabam se perdendo nela, cegando-se para sempre. Por isso, para muitos, o amor torna-se um verdadeiro inferno.

O amor não é um enfeite, mas uma parte da condição humana.

Daí que muitos amantes entram em agonia. Pelo menos aqueles que incham o amor com adjetivações que nada tem a ver com o instinto natural desse sentimento, que é demasiadamente humana, profundamente necessário à nossa existência e, principalmente, ele não veste as carapuças ou roupagens de valores com que querem orná-lo. Por isso ou se cega ou se quebra, a cara, claro.

Do céu para o inferno a via é tênue. E veloz.

"Até Deus tem um inferno: é o seu amor pelos homens”, cantou Nietzsche como o profeta Zaratustra tentando mostrar que o amor é uma necessidade. Tão necessário que até Deus carece dele. E como toda necessidade deve ser usada com equilíbrio, sem exagero, para não se quebrar a harmonia nem fugir da medida certa.

Pois, como dizia minha Vó, “água de mais mata a planta”.





segunda-feira, 21 de março de 2011

Eles que são brancos que se entendam

“Você que inventou esse Estado, inventou de inventar toda escuridão, você que inventou o pecado, esqueceu-se de inventar o perdão...”. (Chico Buarque)



Nossos patrícios portugueses, inequivocamente, foram os responsáveis pela maioria dos ditados que ainda hoje cultivamos e que fazem parte de nossa cultura popular, largamente divulgados.

O ditado eles que são brancos que se entendem, com origem em um período que os negros sofriam preconceitos raciais, pasmem, não deixou também de ser um ato de preconceito em relação aos brancos.

A raça humana sempre teve dificuldade de compreender que é apenas uma raça. Nada mais que isso.

Conforme reza como uma quase lenda, a origem deste ditado registra uma das primeiras punições impostas aos racistas do tempo mais racista no Brasil, ainda no século XVIII.

Assim, conta-se, amiúde, esta história:

- Um mulato, capitão de regimento, teve uma discussão com um de seus comandados e queixou-se a seu superior, um oficial português. Branco, evidentemente. O capitão reivindicava a punição do soldado que o desrespeitara. Como resposta, ouviu do português a seguinte frase: “Vocês que são pardos, que se entendam”.

O oficial queria deixar que a pendenga se resolvesse entre os negros.

O capitão ficou indignado e recorreu à instância superior, na pessoa de dom Luís de Vasconcelos (1742-1807), 12° vice-rei do Brasil. Ao tomar conhecimento dos fatos, dom Luís mandou prender o preconceituoso oficial português, que estranhou a atitude do vice-rei.

Mas, dom Luís se explicou:

- Nós somos brancos, cá nos entendemos.

Aqui vem à tona um outro e velho ditado popular: quem com ferro fere, com ferro será ferido. O certo é que dom Luís não deixou o caso “passar em branco”, para irritação de seu patrício e contentamento do reclamante. Se verdadeira ou falsa esta história, pelo menos convenhamos que seja muito bonita.

E bastante didática.

Em primeiro lugar constatamos que, nesse caso, se vivenciava uma relação de poder, de hierarquia. “Em qualquer lugar onde encontro uma criatura viva, encontro desejo de poder”, já detectava o mestre Nietzsche. De poder e de julgamento. Os seres humanos adoram julgar seus semelhantes.

Daí as relações extremamente política da existência humana.

"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Era a crítica do filósofo alemão à incompreensão do sentido das coisas e à limitação do homem em sua capacidade de julgar.

A falta de discernimento de muitos faz a sapiência de poucos.

Ora, ainda hoje a ordem constituída se estabelece entre iguais e desiguais que devem não somente se entender, mas, sobretudo, compreender e obedecer. E os grupos sociais tem sim, ao que parece, levado muito em consideração esses adágios tão arraigados na cultura popular.

Vovó que o diga.

Eles que são brancos que se entendam, é o mesmo que, cada macaco no seu galho, manda quem pode e obedece quem tem juízo ou ainda o velho cada qual com seu cada qual.

E como se tem levado isso ao pé da letra.

Quem não detectaria aqui tão facilmente uma velha questão nietzschiana como a moral de rebanho? "A moralidade é o instinto do rebanho no indivíduo”. Mais claro que isso, impossível.

E fazem de tudo para manter tal status quo.

Por isso, Nietzsche ainda dedura os que de alguma maneira ganham com exercício de poder. “O idealista é incorrigível: se é expulso do seu céu, faz um ideal do seu inferno”.

O homem sempre deseja sobrepor-se ao outro.

E também não podemos esquecer que o homem adora exercer esse poder sobre outro homem, tem fascinação por isso, e o nosso pensador em questão não titubeia nesse quesito: "Um político divide os seres humanos em duas classes: instrumentos e inimigos”.

E, nesse caso, não interessa que seja negro, branco, ou amarelo.

A grande sacada é que o ser humano tem que trilhar (e brilhar) em seu caminho. Ele foi jogado neste mundo. Arremessado nesta existência. Aprendeu a andar, então ande! Esses preconceitozinhos mixurucas são apenas mesquinharias da existência humana e próprias dos homens inferiores.

Nunca se esqueça do ser que verdadeiramente és. Sem metafísica.

"Eu tenho o meu caminho. Você tem o seu caminho. Portanto, quanto ao caminho direito, o caminho correto, e o único caminho, isso não existe”. Esta afirmação de Nietzsche é belamente trágica: cada um sabe de si. Não existem verdades absolutas.

Mas, uma coisa, com certeza existe: você.

Não foi por outra coisa que Nietzsche fez questão de, ironicamente, mexer com os brios de Descartes, e nos deixou este minúsculo e pretensioso aforismo:

- Existo, logo penso!





terça-feira, 15 de março de 2011

Palavras de mulher



Tenho a felicidade de me corresponder com uma boa e afável Inteligência acriana que, vez por outra me surpreende com seu texto, por certo, cativante. Por isso não posso deixar de compartilhá-lo com meus leitores. Vejam, e leiam o que escreveu a minha amiga secreta.

Boa noite, mon ami. Estou cá a te perturbar, de novo!

Olhou pela janela?
Uma linda cortina de prata líquida desfila por ela e uma densa nuvem de intempestivos sentimentos a tornam mais densa e mais prateada, deixando a noite magnífica.
Aqui onde estou chove a cântaros, e o cheiro de vida vem junto com a fresca da noite.
Uma calmaria turbulenta aflora em mim... Anseio e receio pelo que desconheço.
Do meu nicho, percebo um mundo além da minha densa cortina de prata, e nele entranho.
Comtemplo vultos indistintos a rodopiar nas dobras da minha chuva, posso ouvi-los , embora não reconheça suas palavras :- Ainda assim falam e posso ouvi-los.
Amo e me entrego às cores da chuva! - Tão belas.
A prata de suas lágrimas doces e revigorantes...
A cinza dos interstícios entre cada gota...
A branca da translúcida chama interior de cada gota...
A negra, com sua luminescência mágica e opaca.....
Levante, mon ami , e comtemple a chuva.
Hoje isso te foi oferecido, como tantas outras vezes já o foram.
A diferença, é que hoje , te foi permitido estar aqui para contemplá-la.
Um coração remanufaturado, encimado por olhos cansados.
Boa noite, mon ami

sexta-feira, 11 de março de 2011

Quem vê cara não vê coração



O dito acima é irmão-gêmeo de “as aparências enganam”.

Isso significa que ambos podem ter a mesma vó. Ou quase. Bom, é mais do que sabido que as pessoas aparentam não exatamente aquilo que elas realmente são. Daí a surpresa que, não rara, nós temos aqui e acolá com a personalidade alheia.

As pessoas, na vida, mais representam do que se apresentam.

A exposição de cada um - mesmo que diária - se manifesta segundo o momento, o acaso. Temos também que levar em consideração o seu estado de espírito.

Ah, como as pessoas tem que rebolar nesta vida.

As máscaras são tantas que tem papéis para todos os gostos. Pode-se ter uma atuação de bonzinho e ser, na verdade, muito mau, cruel. Aliás, sabemos que a expressão existe justamente para orientar prudência em relação à gente maldosa, mas com impecável apresentação de boa conduta.

Era por tudo isso que vovó sempre alertava os netinhos contra esta armadilha humana:

- Cuidado, muito cuidado, as pessoas podem não ser o que dizem que são. Cuidado, quem vê cara não vê coração.

E, para rimar nesta conjecturação, vovó sempre tinha razão.

"Há uma exuberância na bondade que parece ser maldade”, já alertava Nietzsche que, apesar de não ser avô de ninguém, era preocupado com a falsidade humana numa existência que deveria ser sempre louvada. Ele sabia que as pessoas se travestiam: eram lobos em pele de cordeiro.

O bom Nietzsche – dono de uma existência perturbada – incorporava o poeta Zaratustra e pregava: Torna-te quem és... Justamente numa tentativa de trazer à tona o que, verdadeiramente, somos. Não aquilo que aparentamos ser.

No entanto, qual um Jesus tresloucado com o mercado em que transformaram a casa de seu pai, ele também se irritava com a ignomínia abundante, e vociferava:

- ... E essa tolerância, esse 'largeur' do coração que tudo 'perdoa' porque tudo 'compreende', é para nós como o vento Siroco... – Assim, Nietzsche desconfiava da representação exagerada e melosa de muito tipo de gente.

Nietzsche talvez tenha seguido o conselho de sua vó.

Quando estive no Egito conheci o Siroco.

Navegando pelo Nilo à noite ou cavalgando pelo Saara ele bafejava meu rosto cansado. O vento quente, muito seco, que sopra em direção ao litoral Norte da África possui esse apelido.

Morno, se apresenta doce.

Mas, enquanto fenômeno, o vento Siroco causa gigantescas tempestades de areia no deserto e manifesta-se quando baixas pressões reinam sobre o mar Mediterrâneo.

Parece uma coisa, mas é outra.

Alguém já escreveu que de onde a gente menos espera é que sai. Por isso, o oposto do coração maldito também não deixa de se revelar vez por outra. O mau também se revela bom. Às vezes as pessoas nos surpreendem e um vilão se torna mocinho.

Aliás, Nietzsche tinha ojeriza às personalidades que descambavam para o vazio ou a neutralidade. “Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade”. Tal espírito é o mesmo que papinha ensossa.

E essa papinha, com certeza, vovó não colocava na minha boca.









quinta-feira, 10 de março de 2011

Antonio Stélio: Cinquent’anos

Antonio Stélio: Cinquent’anos: "MOURA NETO Aos cinquent’anos, hermanos, será que ainda mergulhamos afoitos no mar da imprudência? Será que ainda queremos subverter a or..."