terça-feira, 15 de março de 2011

Palavras de mulher



Tenho a felicidade de me corresponder com uma boa e afável Inteligência acriana que, vez por outra me surpreende com seu texto, por certo, cativante. Por isso não posso deixar de compartilhá-lo com meus leitores. Vejam, e leiam o que escreveu a minha amiga secreta.

Boa noite, mon ami. Estou cá a te perturbar, de novo!

Olhou pela janela?
Uma linda cortina de prata líquida desfila por ela e uma densa nuvem de intempestivos sentimentos a tornam mais densa e mais prateada, deixando a noite magnífica.
Aqui onde estou chove a cântaros, e o cheiro de vida vem junto com a fresca da noite.
Uma calmaria turbulenta aflora em mim... Anseio e receio pelo que desconheço.
Do meu nicho, percebo um mundo além da minha densa cortina de prata, e nele entranho.
Comtemplo vultos indistintos a rodopiar nas dobras da minha chuva, posso ouvi-los , embora não reconheça suas palavras :- Ainda assim falam e posso ouvi-los.
Amo e me entrego às cores da chuva! - Tão belas.
A prata de suas lágrimas doces e revigorantes...
A cinza dos interstícios entre cada gota...
A branca da translúcida chama interior de cada gota...
A negra, com sua luminescência mágica e opaca.....
Levante, mon ami , e comtemple a chuva.
Hoje isso te foi oferecido, como tantas outras vezes já o foram.
A diferença, é que hoje , te foi permitido estar aqui para contemplá-la.
Um coração remanufaturado, encimado por olhos cansados.
Boa noite, mon ami

sexta-feira, 11 de março de 2011

Quem vê cara não vê coração



O dito acima é irmão-gêmeo de “as aparências enganam”.

Isso significa que ambos podem ter a mesma vó. Ou quase. Bom, é mais do que sabido que as pessoas aparentam não exatamente aquilo que elas realmente são. Daí a surpresa que, não rara, nós temos aqui e acolá com a personalidade alheia.

As pessoas, na vida, mais representam do que se apresentam.

A exposição de cada um - mesmo que diária - se manifesta segundo o momento, o acaso. Temos também que levar em consideração o seu estado de espírito.

Ah, como as pessoas tem que rebolar nesta vida.

As máscaras são tantas que tem papéis para todos os gostos. Pode-se ter uma atuação de bonzinho e ser, na verdade, muito mau, cruel. Aliás, sabemos que a expressão existe justamente para orientar prudência em relação à gente maldosa, mas com impecável apresentação de boa conduta.

Era por tudo isso que vovó sempre alertava os netinhos contra esta armadilha humana:

- Cuidado, muito cuidado, as pessoas podem não ser o que dizem que são. Cuidado, quem vê cara não vê coração.

E, para rimar nesta conjecturação, vovó sempre tinha razão.

"Há uma exuberância na bondade que parece ser maldade”, já alertava Nietzsche que, apesar de não ser avô de ninguém, era preocupado com a falsidade humana numa existência que deveria ser sempre louvada. Ele sabia que as pessoas se travestiam: eram lobos em pele de cordeiro.

O bom Nietzsche – dono de uma existência perturbada – incorporava o poeta Zaratustra e pregava: Torna-te quem és... Justamente numa tentativa de trazer à tona o que, verdadeiramente, somos. Não aquilo que aparentamos ser.

No entanto, qual um Jesus tresloucado com o mercado em que transformaram a casa de seu pai, ele também se irritava com a ignomínia abundante, e vociferava:

- ... E essa tolerância, esse 'largeur' do coração que tudo 'perdoa' porque tudo 'compreende', é para nós como o vento Siroco... – Assim, Nietzsche desconfiava da representação exagerada e melosa de muito tipo de gente.

Nietzsche talvez tenha seguido o conselho de sua vó.

Quando estive no Egito conheci o Siroco.

Navegando pelo Nilo à noite ou cavalgando pelo Saara ele bafejava meu rosto cansado. O vento quente, muito seco, que sopra em direção ao litoral Norte da África possui esse apelido.

Morno, se apresenta doce.

Mas, enquanto fenômeno, o vento Siroco causa gigantescas tempestades de areia no deserto e manifesta-se quando baixas pressões reinam sobre o mar Mediterrâneo.

Parece uma coisa, mas é outra.

Alguém já escreveu que de onde a gente menos espera é que sai. Por isso, o oposto do coração maldito também não deixa de se revelar vez por outra. O mau também se revela bom. Às vezes as pessoas nos surpreendem e um vilão se torna mocinho.

Aliás, Nietzsche tinha ojeriza às personalidades que descambavam para o vazio ou a neutralidade. “Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade”. Tal espírito é o mesmo que papinha ensossa.

E essa papinha, com certeza, vovó não colocava na minha boca.









quinta-feira, 10 de março de 2011

Antonio Stélio: Cinquent’anos

Antonio Stélio: Cinquent’anos: "MOURA NETO Aos cinquent’anos, hermanos, será que ainda mergulhamos afoitos no mar da imprudência? Será que ainda queremos subverter a or..."

quarta-feira, 9 de março de 2011

Cinquent’anos

MOURA NETO

Aos cinquent’anos, hermanos, será que ainda mergulhamos afoitos no mar da imprudência? Será que ainda queremos subverter a ordem das coisas, testar nossos limites, romper fronteiras e explorar caminhos ainda não trilhados pelos nossos iguais?

Será que ainda somos capazes de embarcar nas viagens psicodélicas do rock progressivo de Pink Floyd? Navegar na voz estridente de Janis Joplin ou na melodia chorosa de Billie Holiday com a mesma voragem dos infantes que já fomos?

Aos cinquent’anos, hermanos, será que já conseguimos nos libertar da nostalgia entorpecente que nos aprisiona os sentidos quando nos voltamos para os dias fulgurantes de outrora? As tertúlias subversivas no 307 do Wimbledon? O alucinante chá das 5 no Verso e Prosa? As noitadas inconseqüentes no Boca Bar?

Será que ainda temos fôlego para refazer a trilha inca até Machu Picchu? Ou penetrar na floresta para celebrar a vida com os xamãs? Ou ainda, quem sabe, concretizar o tão sonhado projeto do caminho de Compostela? Ou se aventurar no silêncio abismal dos redutos dos monges budistas no Himalaia?

Aos cinquent’anos, hermanos, será que ainda temos a inocência dos que sofrem por amor, dos que se atiram como suicidas às paixões exacerbadas e dos que encontram poesia na banalidade do cotidiano: o cão que ladra, a criança que aprende a andar de bicicleta, o carteiro que confere endereços para entregar a correspondência?

Será que já temos maturidade profissional para escrever o livro que jaz em anotações intermináveis? Será que ainda uma vez mais retornaremos aos pampas para tomar chimarrão nas pracinhas sob o sol ameno do inverno gaúcho? Será que voltaremos a nos encontrar no planalto para trocar confidências sobre os habitantes da antiga aldeia? Será que ainda nos embriagaremos com a alma feminina com um dia nos embriagou Dorothy Lamour?

Aos cinquent’anos, hermanos, será que não chegamos à idade da razão? Não será chegada a hora de investigar nossos pensamentos mais secretos para descobrimos o novo ser que nos habita e que anseia em se apresentar na plenitude da nossa consciência?

Será que já não domamos nossos instintos selvagens e rebeldes e da convivência que tivemos conosco mesmo podemos extrair lições para os nossos descendentes? Será que já não é possível olhar para as rugas que teimam em nos afrontar o rosto e sentir que valeu a pena viver tudo o que foi vivido, todas as alegrias mais alegres e todas as tristezas mais tristes que experimentamos?

Aos cinquent’anos, hermanos, será que já não temos a calma reconfortante para saber esperar o futuro com paciência: como quem espera pelo sol ou como quem espera pela lua?

quarta-feira, 2 de março de 2011

O que não me mata me fortalece



“Eu quis morrer, então eu via que eu não morria, eu só queria morrer de muito amor por ti...”, sonorizava Nana Caymmi.


A frase autenticamente nietzschiana popularizou-se porque deixou as academias e adentou pelos cafés, bares, restaurante e conversas de grupos mais chegados às questões filosóficas.

Logo virou expressão entre eruditos.

E logo vovó ouviu a conversa e achou a frase interessante. Sem pejo e com muita compreensão de seu significado, ela passou a bola para frente. E vovó falava até com maestria quando se expressa com o que não me mata me fortalece. Mas que também se expressa com o que não mata, engorda.

Vovó sempre foi mulher de exemplo

Ela dava aulas sobre o seu significado. Felizes dos netos que aprenderam a lição. “O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte” ou ainda melhor “da escola de guerra da vida: o que não me mata, torna-me mais forte." A rigor, foram as palavras de Nietzsche. Outras publicações dão conta de traduções, tais como “aquilo que não me destrói fortalece-me”.

Mas vovó falava das superações, da dor do enfrentamento da vida, da tragicidade da existência humana, com suas agruras e impertinências a serem superadas. Falava do esforço para não morrer. Do aprendizado que a vida ensinava para fortalecer com a experiência. Para vovó tudo é assim, bem simples.

Tudo é seis. Tudo é meia-dúzia. Tudo é Nietzsche.

Ora, a vida sendo trágica é mais do que natural que as pessoas atravessem acasos muitas vezes nada agradáveis. Os percalços da vida calejam corações e almas, assim como calejam a mão do roceiro trabalhador.

As dificuldades alimentam o espírito de força.

Quem passou por grandes perdas e sobreviveu. Superou-se, se fortaleceu. Não morreu. Quem sofreu uma grande frustração de amor e deu a volta por cima saiu-se mais fortalecido para a vida e para lidar melhor com as armadilhas do amor.

A vida tem uma didática esquisita: ensina na bordoada.

“A vontade se superar um afeto não é, em última análise, senão vontade de um outro ou de vários outros afetos”, eis o que diagnóstica o médico de almas livres, o doutor Nietzsche.

Ele sabia que as emoções falam mais alto que as razões.

Alguém afirmou que ninguém sai de um episódio melhor ou pior do que entrou, mas, com certeza, sai mais resistente, mais imunizado, mais forte para enfrentar desafios semelhantes.

E nesse caso, a subjetividade é que manda e decide. Não há uma regra.

Quem supera um câncer, quem passa por uma cirurgia cardíaca e quem consegue sobreviver diante de uma doença tida como incurável, não pode sair a mesma pessoa dessa situação. O tempo prova que a pessoa, de alguma maneira se modificou e se fortaleceu em algumas de suas manifestações de personalidades.

Ninguém é tão burra que não consiga aprender uma lição.

"Tudo o que é reto mente. Toda verdade é sinuosa. O próprio tempo é um círculo”, ensina Nietzsche, que esclarece que dentro deste tempo a gente manifesta as mudanças que adquirimos, como uma “verdade sinuosa”.

O próprio Nietzsche não deixou de ser cobaia de si mesmo

“Mesmo nos tempos de mais grave doença, nunca me tornei doentio”, escrevera. E ele foi um doente que nunca usou sua doença para choramingar, se fortalecia com ela.

Nietzsche nunca teve um amor feliz.

Nem mesmo Lou Salomé, a quem tanto amou, deu-lhe a alegria dos beijos apaixonados e a experiência de um relacionamento intelectualizado. Mas, nem por isso, Nietzsche deixou de falar de amor com tanta propriedade, com tanta sapiência.

Ele chafurdou o quanto pode com as libertinas de Paris – que para ele eram espíritos livres – onde ganhou vasta experiência amorosa, e uma sífilis, da qual nunca se livrou e que pode tê-lo matado.

Todo o seu sofrimento em vida nunca o definharam.

Seu sofrimento o fortaleceu. Suas fortes e constantes dores de cabeça amenizadas pela morfina, não o impediram de refletir sobra a existência e de reafirmar, com alegria um enorme amor pela vida, que ele chamava de amor fati.

Amar a vida, eis o que fortalece o homem.







quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A VIDA É TRÁGICA, VIVA!


Moura Neto

Inspirado talvez em Nietzsche - “O gosto de minha morte na boca deu-me perspectiva e coragem. O importante é a coragem de ser eu mesmo” - o poeta e jornalista Antônio Stélio avisa os amigos, eu entre eles, que está lançando um novo livro – “A vida é trágica, viva!”, baseado na experiência que amargou no leito de um hospital, em São Paulo, onde foi internado em estado de urgência urgentíssima com apenas 30% de chance de sobreviver, segundo o diagnóstico médico.

O beijo da morte dá calafrio, informa ele, logo de saída, aos que porventura se interessem pelo relato do drama que vivenciou, em setembro do ano passado, e que já está em processo de impressão. Pelo que me disse, via imeio, a sensação é a de estar em um barco à deriva e expressar nos olhos a esperança de que logo navegará em águas calmas. Desde que alguém apareça, sei lá de onde, e dome o barco, como quem doma burro brabo, para dar-lhe tento e rumo.

O certo é que durante o período em que ficou hospitalizado, à espera da cirurgia para receber três pontes de safenas e uma mamária - e depois, na convalescença – aproveitou para filosofar sobre a situação, elaborando uma espécie de “diário de uma quase morte”, compartilhado, inclusive, com amigos e familiares através de mensagens enviadas e recebidas pela rede social.

Foi inevitável, pelo que diz, reflexões do tipo: “Talvez, se eu soubesse quando o frio da morte me fizesse sua visita definitiva, eu me desfizesse com rapidez desse manto inútil que me faz pensar que sou a melhor pessoa do mundo”.

A intervenção cirúrgica no Incor, que durou sete horas e meio, não o amedrontou. Mas deu para sentir aquele friozinho na barriga. Na hora da consulta, aliás, sofreu mais um enfarto, só que desta vez, menos mal, diante da médica.

Durante o tempo em que ficou na UTI, oito dias, garante ter testemunhado momentos que ilustram a tragicidade da condição humana. Durante a noite ficava a perceber os pacientes, cada um com suas dores, desesperos e dilemas. E nessa condição, abatido e sem forças, acha que conseguiu aprender o significado daquele sofrimento, dele e dos companheiros de leito.

“Não driblei a morte. Eu a encarei e agora estou aqui para contar a história”, sentencia Stélio. Sendo assim, o livro, pelo que deduzo, é uma ode à vida. De alguém que descobriu o que realmente quis dizer Blaise Pascal - É mais fácil suportar a morte sem pensar nela do que suportar o pensamento da morte sem morrer.

Pergunto ao amigo sobre a maior lição que ficou da sua experiência. “Os anjos morrem primeiro”, responde.


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Ser ou Não-Ser, eis a tesão!


O filósofo Guilherme Cunha, professor concursado e recém empossado pela Universidade Federal do Acre (UFAC) está lançando em março seu novo livro com o título acima. Trata-se de um olhar crítico do ponto de vista do pensamento trágico sobre a existência humana. Abaixo publico a apresentação que fiz da obra.

Zaratustra solta a voz na floresta amazônica

Antonio Stélio


Existe um ditado corrente entre os gurus da velha Índia que diz: se você encontrar Buda no caminho, mate-o. Osho - um desses gurus mais conhecido - gostava de citar a frase a seus seguidores.

Ele queria alertar contra a nociva dependência de um mestre. Buda está morto há mais de dois mil e quinhentos anos, portanto, ninguém pode matá-lo.

Do mesmo modo que Jesus Cristo também não pode ser crucificado uma segunda vez. Os seguidores de ambos não precisam assassiná-los, apenas superá-los, libertando-se da sombra influente.

É assim que um discípulo supera o mestre.

Livrando-se dele.

Inteligente, Nietzsche, a rigor, não teve mestre. Nem podemos afirmar que fora discípulo de quem quer que seja: do pai, da mãe, do músico Wagner ou do irascível Arthur Schopenhauer ou até mesmo de algum outro barbudo de seu tempo.

Ou da antiguidade.

Mas, ele criou o profeta Zaratustra para cuidar de suas ideias. Para anunciar suas boas novas. Profetas e discípulos parecem andar pela mesma seara.

Que este o superasse, então, se quisesse.

Superar não superou, mas proliferou zaratustras pelo mundo, que ainda hoje carregam seus cadáveres em tresloucadas trajetórias, comumente incompreendidas, indecifradas.

No prólogo de Ecce Homo Nietzsche confirma nossa interpretação:

§ 3: Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar da altitude, um ar forte. É preciso ser feito para ele, senão o perigo de se resfriar não é pequeno. O gelo está perto, a solidão é descomunal – mas com que tranquilidade todas as coisas estão à luz! [...]

O pensamento trágico traz em seu bojo esse ar rarefeito, um silêncio que grita, mas com uma claridade tão enormemente cintilante, que somente não faz enxergar aos cegos pelas crenças; aos idiotizados pelo saber acadêmico ou aos mortos vivos incapazes de amar a vida.

A constatação assusta sim, afronta, mete medo.

Tudo isso porque não engana.

Ensina na bordoada mesmo. Para ensinar o trágico somente existe uma maneira: tragicamente. Assim a grande lição do Zaratustra deste livro é: a vida é trágica! Viva!

E esta é a compreensão fundamental para ser um Zaratustra.

E Guilherme Zaratustra Cunha encarna essa concepção, na qual, vai além: originaliza-se. E se torna um verdadeiro profeta que com seu cajado emissor de palavras grita nos ouvidos dos moucos; dos velhos; dos covardes e dos ultrapassados; encontra ressonância na avidez da juventude destemida e registra no cartório da filosofia seu livre pensar.

E assina em baixo.

Ou em cima. Tanto faz.

Por isso não tenho medo de afirmar: este é de longe o mais trágico dos textos que já me caiu às mãos entre todos os novos zaratustras.

E Guilherme é o autor da proeza.

Para ler este texto é preciso ter estômago. E cheio de ar. Leia-o de um só fôlego e sentirás uma grande explosão tinindo aos teus ouvidos, tuas têmporas, tão ensurdecedora é a mensagem.

Você vai se assustar, claro.

Mas, desnecessariamente.

A verdade é que a emoção que sentirás apenas vai parecer susto, medo, pavor. Apenas parecerá. Lá no fundo de tua alma o que sentirás, efetivamente, será o espanto.

E quando compreender isso, quando estiveres diante do espanto tu saberás, então, que estás lendo filosofia. Melhor: filosofia trágica, aquela que te explode com dinamite em mil pedaços e esmaga os restos mortais – se alguma coisa sobrar - à martelada.

É nesse momento que te sentirás cruelmente vivo e humano. Demasiadamente humano. E feliz. Extraordinariamente feliz.

Porque somente o trágico sabe-se feliz.

Quer um aperitivo? Prove, pois, bem devagarinho, pelas beiradas, como se fosse aquela papinha de aveia quentinha, fumegando, à mercê de suas narinas:

Existiria felicidade sem prazer?

Epicuro uniu o prazer do corpo com o prazer da alma. A felicidade é possível. Cada homem tem que roubar o seu fogo dos deuses?

O fogo está em vós, o fogo sois vós!

Quereis acender-se em eternas chamas? Não devereis perder demasiadamente o contato com as mulheres. Elas têm sempre uma brasa acesa por baixo das suas cinzas, é só assoprar.

As mãos podem te ajudar a abanar se não tens bons pulmões.

Mais não te posso oferecer. Sob pena de quebrar o encanto.

E o espanto.

Assim, este livro é uma dádiva para os amantes da filosofia; é um presente para os descontentes felizes; é um bálsamo para os espíritos que amam a vida incondicionalmente e um elixir para a juventude não perder o viço.

Não fugir da raia.

Aqui há um Zaratustra que toma diversas facetas: profeta como sempre, mais que se veste também com diferentes roupagens. O Zaratustra deste livro é professor ou terrorista? Padre ou rabino? Poeta ou Don Juan das letras? Mentecapto ou ilustrador da razão? Pode ser um pouco de cada um ou nenhum deles, dependendo do olho que lê.

E tudo vê.

Mas, sobretudo, é genuinamente um filósofo. Guilherme é filósofo na alma, no sangue. Ele tem DNA de filósofo.

Lendo-o irá o leitor ter sonhos com Wilhelm Reich falando sobre a função do orgasmo; ouvirá Roberto Freire gritando que sem tesão não há solução; se entreterá com Nietzsche vivendo o amor fati; sentirá pulsando a alma de Clément Rosset na alegria maior; perceberá um velho Epicuro harmonizando corpo e mente e sentir-se-á livre e sem medo, e poderá até defecar, animalescamente, onde lhe der na telha. Ele lhe dirá: sim, ame e dê vexame!

Guilherme Cunha não tem amarras.

Por isso, fundamentalmente, saiba que depois de ler este livro você não será mais o mesmo. Estará para sempre livre dos grilhões metafísicos que aprisionam os homens cheios de dúvidas. Ganhará um espírito forte, aristocrático e viverás com luz própria. A luz que faz os grandes homens: aquele que é dono de seu próprio nariz.

Terá matado teu Buda. Terá se livrado do mestre.

Mergulhe e submerja de alma lavada. Depurada.

Sem medo de ser feliz.