terça-feira, 5 de outubro de 2010

A visão (bem humorada) de um cardiologista

São Paulo 03 de outubro de 2010.

Pensando em como iniciar essa “resenha” solicitada mui gentilmente por vossa senhoria, caro Antonio Stélio, lembro que hoje não poderemos contribuir com o país através da nossa cidadania. Simplesmente pelo fato de estarmos fora de nosso foro eleitoral (você uns quilômetros a mais que eu), e ambos dentro do hospital - cada qual na sua função. Aliás, espero que mantenha sua condição de paciente e aguarde, com paciência, sua cirurgia.

Acho que a melhor maneira de expressar minha visão é – literalmente - começar do começo que, para mim, inicia no momento em que entrei na Unidade Coronariana (UCO) do InCor, naquele dia 29/09/10 e fiquei sabendo que havia um novo paciente no leito 4026. O colega de plantão me informou que se tratava de Antonio Stélio, 52anos, proveniente do Acre. O paciente estava diagnosticado Infarto Agudo do Miocárdio, já realizado cateterismo cardíaco no InCor. e que estava em programação cirúrgica.

Foi, então, que decidi conhecer a Antonio Stélio e saber se estava bem – nem sempre dentro de uma UCO ou UTI é possível conversar com os pacientes, pois na maioria das vezes estão inconscientes e entubados.

Logo que entrei no quarto percebi que poderia haver um diálogo devido ao fato de estar respirando sem a ajuda de aparelhos, e todas aquelas “parafernálias” que ficam ao lado da cama do paciente, o impedindo até mesmo um contato próximo. Vi também que o diálogo haveria de ser diferente do convencional; com possíveis neologismos, declinações e arcaísmos. Tudo isso porque no entremeado daquele corpo - todo contorcido na cama - havia livros com autoria do próprio paciente, um dicionário de expressões em latim e um netbook! Não hesitei em chamá-lo pelo nome, um pouco mais alto, por mais de três vezes, após repetir o “bom dia”, sem sucesso.

Imaginei (Réquiem aeternam dona eis domine – segundo Mozart Kv662): outro paciente sem poder conversar. Mas na hora percebi que apenas dormia. E como dormia! Recebi um grave e rouco “bom dia doutor dormi muito tarde, aliás cedo, já estava quase de manha quando desliguei meu computador... Troco o dia pela noite, fico escrevendo”.

Assim foi meu primeiro contato com o Stélio.

Disse a ele meu nome e depois conversamos um pouco sobre o ocorrido nos últimos dias, até sua vinda ao InCor. Informei que, juntamente com a equipe de médicos daquela unidade, iríamos dar continuidade ao seu tratamento. Naquele momento eu estava querendo saber como estavam os “trâmites legais” do pré-operatório. Ele, por sua vez, aparentou-se calmo e, informado sobre a cirurgia, disse que estava bem, porém, com sono. Mas eu sabia que, posteriormente iríamos conversar mais sobre o assunto. Jamais imaginei que ser convidado a participar deste trabalho, uma obra que revela o seu enfrentamento da situação - livro que imagino será revelador -, escrevendo a minha versão (visão do médico) sobre o fato.

E o fato é que não tenho vocação para escritor. Espero que meu relato/texto/resenha/anotação, ou seja lá como chamem, seja lapidado pelo nobre editor. Porém, eu posso assegurar que não tenho conflito de interesses, que não espero direitos autorais (mas, pelo menos uma cópia autografada!) e nem quero romper a relação médico-paciente, revelando informações sigilosas em desacordo com a sua vontade.

Na minha impressão, vejo que assim como outros milhares de escritores que tem a oportunidade de relatar parte de sua biografia, Stélio o faz de forma concisa e meticulosa, não guardando os pormenores. Por isso fico honrado de poder tentar esclarecer de forma coloquial, o modus operandis de sua internação.

Quero te dizer, caro Stélio, que apesar de estar se sentindo bem, o senhor é um cara forte e de sorte, pois, só pelo fato de vir do norte – (não! isso foi pela rima). Na verdade, a sorte é pelo fato de estar vivo. Tens lesões obstrutivas graves por placas de gordura em todas as principais artérias que irrigam o teu coração, (uma delas está até totalmente ocluída).

Enfim, és um sobrevivente de um infarto.

Poucos conseguem chegar até o hospital. No Brasil as doenças cardiovasculares matam cerca de 300 mil pessoas ao ano, o que corresponde a 820 óbitos por dia. Um pouco da função deste teu músculo cardíaco foi comprometido após este evento. Porém, o tratamento que estás recebendo (medicamentoso) e o que vai receber (cirúrgico), é capaz de restaurar parcialmente o dano, juntamente com as modificações em seu estilo de vida.

Fiquei feliz quando me disse que iria abandonar o cigarro. Porém ao mesmo tempo triste ao saber que vai, na verdade, substituir o cigarro pelo cachimbo (como me disse – na frente de sua irmã Rosângela e sua filha Stélia). Tudo bem que combina com um escritor umas cachimbadas introspectivas, mas não vale à pena soprar a vida para o alto, não é?

Stélio lembre-se: na vida de um escritor mais que um mecenas, uma linda e boa “macenas” ou até mesmo a Mega Sena, vale a Vida! E, se for para viver, que seja feliz, ou melhor, permanecer feliz!

Nem antes, nem depois, simplesmente já.

Luiz Ferreira - médico-cardiologista


Um novo amigo: Compadre Guilherme, sem dúvida a vida vivida sob o aspecto trágico capacita-nos para exercer a felicidade. É assim que venho reagindo e vivendo diante desta situação. Com isso tenho me fortalecido. Tua correspondência tem sido para mim de grande valia. Aliás, posso afirmar, com certeza, uma coisa: - Tuas palavras são medicinais! Falando em coisas como medicinais, o médico Luiz Ferreira, da equipe do Incor, dono de uma inteligência sofisticada, leitor de O Amor é Trágico, Ame, tem de revelado o novo amigo e quando pode, sempre aparece para uma prosa com este cambaleante sujeito acreano. Queria entrevistá-lo. Devido a situação, nao pude. O cardiologista, no entanto, não se fez de rogado e resolveu o problema: se dispôs escrever algumas palavras, aproveitando o domingo eleitoral. Eis, a razão pela qual publico acima, seu belo e inusitado. Com o devido muito obrigado, é claro.








segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Amante da Filosofia


Magno compadre Stélio,

A temperatura está boa! Mais uma friagem está rolando.

Ontem, 02 de outubro, estivemos em Brasiléia, fomos comprar muambas; pois a Ivanilda vai a Manaus dia 04 deste para um encontro de formação profissional pelo Ifac e retornará somente dia 12.

Estou trabalhando à tarde no estado e à noite na faculdade Euclides da cunha no curso de pedagogia.

Estou preparando as minhas aulas ao estilo clássico. Aula escrita, uma por uma e os alunos estão me agradecendo; visto que tudo está sendo bem "digerido".

Creio que no final do curso tenha mais um livro pronto.

O bom intelectual é aquele que pensa rápido e também age rápido, é aquele que sai da moita e escreve não as suas frustrações, mas algo que auxilie as pessoas a refletirem melhor sobre as grandes questões existenciais.

Tenho refletido bastante sobre os teus textos, sobre os nossos encontros, sobre nossas vidas. Vi muita afirmação em tudo, não recrimino absolutamente nada.

Somos seguidores do poeta dionisíco zaratustra, ou melhor, somos nietzschianos, tragicamente, eticamente, esteticamente nietzschianos.

Para Nietzsche e para nós a vida é uma fonte de alegria!

Mas para aquele que deixa falar o estômago sobrecarregado de tristezas, todas as fontes estão envenenadas!

Vivemos o reinado da grandeza de espírito. Somente um espírito livre, consegue entender outro espírito livre!

Aposto cada vez mais em nossas vidas. Nossos olhares ainda incomodarão os espíritos apolíneos, construtores de um mundo verdade para esconder suas mediocridades.

Somos bons porque acreditamos que a felicidade é possível, que ela é uma construção humana, demasiadamente humana. O resto é mera fantasia de metafísicos.

Não somos irmãos de sangue, mas somos irmãos de ideias, de conceitos, de ternura e de humor. Você é meu irmão mais querido. Somos cúmplices da felicidade trágica, visto que captamos - o que pouca gente consegue captar que é - a sabedoria trágica que afirma a vida incondicionalmente.

São poucos os homens que entendem isso.

O poeta trágico sabe se mimetizar conforme as necessidades vitais. Os trágicos são sempre capazes de apostar que a vida é boa!

Almoçamos com bastante hortaliça, somos os produtores. Democracia é poder produzir, o resto é enrolação política. Estou criando um projeto de horta alternativa. Com pouca coisa é possível produzir, o principal é coragem para trabalhar!

Estamos lhe aguardando para que venhas com a SS se lambuzar com o nosso azeite e muita salada. O alimento vivo dá mais tesão. Não esqueça do exercício físico e menta, o melhor afrodisíaco para o homem.

O meu facão está afiado para trilhar novos caminhos. A vida ainda vai nos reservar bons encontros, aliás, o que realmente conta em nossas vidas são os bons encontros.

Mil vezes alegria... Afirmativamente

Guilherme da Silva Cunha

Um eterno amente da filosofia.

domingo, 3 de outubro de 2010

Rio Branco, 3 de outubro de 2010 - 09:50

Querido filho Stélio,
Aqui em casa todos nós estamos com saúde, graças a Deus que nos tem suprido de tudo. O Glauco, todos os dias, almoça conosco e está passando bem de saúde. O tratamento dentário dele já está quase concluído. Ele agora tem um sorriso bonito.

A esposa dele que se cuide.

Aliás ela também fez um tratamento dentário muito bom. Está também bastante linda. A Dinair, a médica da família, está preocupada com a saúde dela, mas isso é só nervosismo. Ela está trabalhando, como sempre, durante o dia todo e, inclusive à noite, e prepara a sua tese de doutorado.

O José Wilson e todo o resto da família estão bem. Não os tenho visto. Ontem a Janaina passou rapidamente aqui, para conversar um pouco conosco, mas não trouxe nenhuma novidade. Só segredou um pouco com a Neide.

O Marcelo segue o seu curso direto, como um rio durante a enchente, levando tudo de eito, sem se importar com os resultados. Quem for podre que se quebre. Aqui em casa todos nós estamos bem. Tua mãe sempre preocupada. É o jeito dela. Eu acho que ela procura alguma coisa para se preocupar.

Eu também sei o que estás passando, mas a minha confiança está em Deus. E eu creio que Ele já tomou conta de ti e vai te ajudar nessa batalha pela vida e no final sairás vitorioso. Tenha fé nesse Deus maravilhoso, Ele tem me valido durante toda a minha vida, e eu tenho vencido muitas dificuldades que sozinho jamais poderia alcançar. Vale à pena testar esse Deus maravilhoso.

O meu irmão Antonio - teu tio e xará - passou por isso. E tua mãe também. E ambos venceram. Inúmeras pessoas têm feito essa operação de safena e sobreviveram. Tu também, vencerás. A terra para produzir um produto mais abundante precisa ser escavada.

Eu creio também que um poeta e escritor precisa ser revolvido, para produzir uma obra mais perto de Deus. Por hoje chega. Amanhã tem mais. Que o Senhor Jesus Cristo te abençoe e te guarde nesta caminhada que ainda tens de percorrer na tua vida.

Teu pai, amigo e admirador CLÁUDIO





Rio Branco, 3 de outubro de 2010 - 10:36

Querido filho STÉLIO!

Já votei: Serra, Petecão, João Correia, Bocalom, Flaviano e Nazaré. Cumpri com a minha responsabilidade de cidadão. Você está impossibilitado de cumprir essa obrigação e, estando fora do teu domicilio eleitoral, nem deitado podes votar.

Tua prioridade agora é a tua saúde, pelo menos é o que nós, que te amamos desejamos. Estou firme em oração ao nosso Pai Celestial. Eu acredito e tem mais uma coisa: confio Nele. Tenho conversado muito com o meu Senhor sobre tua pessoa. Como Ele é muito amoroso eu creio firmemente que vai te ajudar a vencer essa parada. Não estarás só durante essa passagem difícil. Ele estará contigo te dando a força necessária para enfrentar essa operação. Essa será a melhor ajuda que qualquer pessoa poderá ter. Deus não é como o homem. Ele tem o verdadeiro amor, que nós homens tentamos, a todo custo imitar e não conseguimos.

Ele ama de verdade.

Ele não vê os teus erros, os teus pecados e as tuas falhas. Ele vê a tua necessidade e vai te ajudar. Confie nisso. A experiência que tenho, com minha convivência com Ele, nesses 40 anos que o sigo, me confirma que tu estás em boas mãos. Não temas. Não tenhas incertezas. Ele é poderoso. Confie nesse Deus poderoso que pode realizar coisas que a mente humana nem pode imaginar.

Tua mãe também votou. Os nossos votos são iguais porque pensamos do mesmo modo.

Estamos unidos há 58 anos e a nossa lua de mel ainda não acabou.

Ainda estou no primeiro amor da minha vida.

Nascestes, meu filho, na força deste amor, portanto és forte, resistirás a qualquer coisa porque és vencedor. Não és somente um poeta, um escritor, mas és vencedor, filho de vencedores. Com estas experiências vai ficar mais forte ainda. Vais ter mais confiança em ti e em Deus que te tem abençoado durante todos estes anos de tua vida. Pensa sobre tua vida, por onde andastes. Tudo que te aconteceu foi para te tornares mais forte, destemido. Eu sei o que estás enfrentando, mas não tenho nenhum temor, nenhum receio porque sei em quem tenho crido.

Que Deus continue te abençoando.



Até amanhã. Cláudio, teu pai que muito te ama.

Mil vezes alegria no ato de existir

O exato pulsar do instante nos afirma continuamente.

O acaso está sendo genereroso conosco.

Estamos vivos, devemos tão só afirmar a nossa existência. Não somos masoquistas e tampouco sádicos. Definitivamente não gostamos de sofrer. Mas quando é algo inalterável devemos aprender com a dor.

Tudo tem o seu fluxo e refluxo.

A vida é um eterno devir. Nela tudo pode acontecer; porém, enquanto vida nós tivermos sejamos agradecidos, conforme atesta a filosofia trágica.

A axiologia para o trágico é algo que faz parte da sua vida.

O trágico conhece como ninguém o que são os valores e suas armadilhas, exatamente porque reconhece a vida como força maior.

O humor sempre encanta!

"Sejamos felizes, tudo vai mal", atesta a filosofia trágica. O homem feliz realmente incomoda a muita gente.

O homem trágico compreende muito bem que:

Os grandes sonhos só se realizam quando os pequenos são postos em ação. Os maiores caminhos só existem a partir dos pequenos percursos. Os rios mais caudalosos só têm razão de ser por causa dos pequenos cursos de água. Os maiores ricos precisam dos pobres para construir seu capital. Os grandes infortúnios têm tudo a ver com os pequenos. A grande política do domínio dos corpos só existe se a pequena for efetivamente cumprida.

Compadre, fique certo de que, eu e Ivanilda e Sofia e Dionísio somos teus eternos admiradores. Estamos com saudades!

Ficamos contentes em saber que tu és a personificação da besta, pelo menos tu és alguma coisa, melhor do que o anonimato! O acaso vai ser generoso contigo!

Viva os nossos encontros bem vividos!

Viva nossa forte amizade!

Abraços cordiais e eternas saudações filosóficas!

Guilherme da Silva Cunha

Filósofo



sábado, 2 de outubro de 2010

AS TRÊS NOVIDADES

Sábado, 2 de outubro de 2010


Compadre Guilherme: temos novidades.

A primeira é que a minha cirurgia, que seria realizada nesta segunda-feira, dia 4 de outubro, segundo o cardiologista Luiz Ferreira, membro da equipe, fora transferida, agora para o dia seguinte, ou seja, para a próxima terça-feira, dia 5, pela manhã.

Ainda sujeita a confirmação, porém.
Contudo, estou calmo.

A segunda e melhor notícia, no entanto, é a de que Stélia chegou. Agora tenho minha filha ao meu lado, sempre alegre e carinhosa. Ela e Rosângela estão a cuidar de mim. Veio de Goiânia. Temos uma hora por dia, mas a tolerância do pessoal aqui nos deixa juntos, às vezes, por quase duas horas.

O certo é que estou aceitando tudo com a necessária crueldade e alegria. Irrita-me, no entanto, ficar preso a um aparelho que não me permite deixar a maca-cama. Estou indo para o quarto dia nesse estado.

As enfermeiras me dão um banho por dia.
Chamam de "banho de leito". Duas delas ficam a me virar e revirar passando pano ensaboado e jogando água quente para lavar. Já estou acostumado com isso. Tenho um kit higiênico também. Acho até um exagero ter que tomar um banho todo dia!

Nesses dias que cá estou ainda não evacuei, segundo a linguagem técnica das enfermeiras; ainda não fiz cocô, segundo expressão dos educados e ainda não caguei, segundo minha própria versão. E isso apesar da dieta laxativa que a nutricionista Isabel - para quem autografei um de meus livros - me destina. Talvez hoje isso aconteça, pois os primeiros puns ameaçam essa possibilidade, quase iminente.

Conversei com a enfermeira de plantão desta noite, para entrar em um acordo: usar a cadeira com a "comadre" por baixo. Assim ficará mais confortável. É só colocá-la ao lado da cama, de um jeito que não desligue o aparelho que me monitora.

Compadre, enfim, a terceira boa notícia é a de que SS escreveu. Pensei que tinha sumido, abandonando-me. É uma pessoa d um humor interessante. Confesso que os textos dela estão me fazendo muito bem.

Veja, Guilherme, o que ela me remeteu, ontem:

- Mon ami ,

Acabei de chegar ao plantão, e quer saber? Vim correndo para ver se ainda estavas vivo. Obrigada por não ter feito feio frente às minhas expectativas.  Continue assim.

Que esse coração despedaçado sofra menos do que os corações por você despedaçados...
Aqui? O inferno sobre o limbo (sol a pino, pouco vento, perfume francês em abundância (o vulgo cêcê no ar), e uma leva de gente burra!!!!

Quer ter inveja?

Ontem, para matar um sentimento saudosista que me assola, eu umedeci a boca, mergulhei minhas papilas em um vinho (rubro como sangue, denso como sangue e suculento como deve ser o sangue).
Maravilhoso, mesmo que degustado entre eu e eu mesma.
Pude assim me iludir a achar que poderia voar, a despeito dos tão famosos vampiros que sabem tudo de sangue. Eu, particularmente, não curto muito a sensualidade desses seres, eles são óbvios demais!

Quer saber o que eu acho sex em termos de seres fictícios? Ou quer arriscar e tentar me entender? Eu, a princípio acho precoce de sua parte, mas como pretensão é uma condição nata e não sine qua non do homem... Dessa forma, como pretendo que sejamos para lá de amigos vou magnanimamente te conduzindo assim: uma luz para você me decifrar.

Eu sou seduzida pelas criaturas calmas, introspectivas, reflexivas, mas acima de tudo seguidoras de uma ética, mesmo que tal só se faça entender por aquele que a segue.
Curto o filósofo nato que questiona por que veio ao mundo e não aceita a forma como se deu tal criação, e não obstante sua vontade arca com as consequências dessa gênesis (agora a luz....adivinha quem é tal ser!)

Dica um: sua criadora é uma mulher.

Dica dois: é um em muito.

Dica três: é sex e pueril simultaneamente.

Mon ami - ocorreu-me nesse exato momento que posso estar indo além de uma breve visita de cova e, assim sendo, não posso me demorar. Deixe-se cuidar, sim? É o que você tem a fazer nesse momento.
E a respeito de minhas colegas que se acham, elas podem e você, nesse momento, não.

Agora descanse e não morra.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Barba, cabelo e bigode

Mano Guilherme,

Tenho novidade. Na visita da Rosângela, de ontem à noite, pedi que entrasse em contato contigo, pois quero tuas opiniões como parte dessa experiência de vida.

Mas algo aconteceu.

Sem que esperasse, num repente, tiraram-me, às pressas da Unidade de Emergência. Trouxeram-me de lá e instalaram-me na UCO – Unidade Coronariana. Lá, eu estava num furdunço danado: um inferno de sofrimento humano. Sempre lotado de ais e angústias, em leitos espalhados por corredores e vãos estranhos. Sem dormir a noite inteira observava tudo aquilo.

Agora, aqui na UCO é um paraíso.

Literalmente. A Emergência é no térreo, a UCO no quarto andar, como na fábula cristã: um embaixo, outro em cima.

Deram-me um quarto todinho somente para mim.

A cama-maca é toda motorizada. Eu mesmo aperto os botões e me boto sentado, deitado, de cabeça para baixo e, se duvidar, até em posição vertical. Também, é possível manejar o leito fazendo descer as pernas.

Parece a cadeira do papai!

Tenho uma televisão na parede e um aparelho esquisito que monitora até o oxigênio que está a correr pelo meu sangue. Se é que ainda o tenho de tão vampirizado que estou sendo nesta vicissitude. Nos últimos vinte dias: dezenas de seringas chuparam meu sangue quase sem alternância.

A diferença de comodidade entre os dois locais é gritante.

Lá embaixo gritos de sofrimentos; aqui em cima um silêncio extremamente favorável ao ócio criativo. Deixo a TV ligada apenas para sentir vida ao meu redor. Espantar a solidão proporcionada pelo isolamento que se faz necessário.

Fico mais escrevendo sobre o que se passa comigo nesse enfrentamento, mexo em alguns capítulos do romance e na biografia do Barão Mesquita.

Meu bom compadre vivo uma sensação nova, estranha e desafiante, mas depois da mudança estou me sentindo mais ou menos assim: desalojaram-me da Hospedaria Camelo e transferiram-me para o Hotel Pinheiro.

Aliás, Guilherme, falando em besta, uma curiosidade que não devo deixar de registrar. Durante o atendimento de emergência, as enfermeiras, após constrangerem-me no depilamento das partes íntimas – coisa que me deixou ruborizado – também implantaram em meu pulso esquerdo uma coisa que chamam de acesso intravenoso, enquanto que no pulso direito enroscaram uma pulseira com um código de barras: agora sim, definitivamente, sou um número a mais na rua, no mundo e na vida.

Para instalar-me neste quadrante particular do quarto andar do Incor tive que, antes, higienizar-me no banheiro da Emergência. Minha mãe providenciara uma malinha com todos os apetrechos de limpeza pessoal, para esse tipo de serviço corporal que os franceses chamam de toalete.

No banho prolongado usava pouco xampu. Estou quase sem cabelo na cabeça. Mandei passar a máquina na rotação quatro. Por isso deixava a água quente correr sobre o curativo de plástico, gaze e algodão do cateterismo, na virilha.

Esperava que esse processo amolecesse as substâncias que grudavam à pele. Assim, ia retirando vagarosamente o curativo na tentativa de impedir o doer provocado pelo retiramento do material em contato com os pelos pubianos, sempre atrevidos.

Pasmei, Guilherme!

Quando por fim consegui retirar todo o curativo foi que percebi o inusitado: as enfermeiras passaram o barbeador apenas no lado direito de virilha, por onde foi introduzido o cateter.

Fiquei olhando aquela aparência estranha, e irritando-me com o que considerava uma sacanagem. Deveriam ter raspado tudo. Mas uma lembrança me fez ter uma acesso de riso sob a chuveirada confortante: raspar pela metade as minhas partes pudendas me fez lembrar a barba do Braga.

Que coisa esquisita!

O depilar incompleto fazia do meu pênis uma caricatura grotesca amparada pelo saco cabeludo! Agora, porém, mais tranquilo, é que estou me dando conta de algumas coisas, como, por exemplo, o número de identificação na minha pulseira de paciente: ID 3343666. Perceba, compadre, que os três últimos dígitos constituem o bíblico número da besta.

Moral da história: eu é que sou o besta! A exótica mula bíblica, a representação do mal humano. E bem identificado! Com direito à purgatório e chancela oficial.

Um pai ausente

Antes de desligar o computador não deixei de fazer a última consulta em minha caixa de mensagens. E lá estava o texto de meu filhote amado. Não poderia deixar de lê-lo. Lian escrevera:

Quarta-Feira, 29 de setembro de 2010 23:02 horas

- Pai, como você está? Tá bem? Sentiu mais dores no peito, não é? Espero que você melhore para passarmos mais tempos juntos

Eu estou bem e com muitas saudades de ver meu velho. O meu velho que me levava para aqueles lugares malucos; que só faltava me oferecer bebidas ayahuasca; meu velho que era muito presente na minha vida, que só SUMIA de vez em quando.... Rsrs... Eu estou indo muito bem na escola. Minhas provas acabaram tem pouco tempo. Acho que fui bem, pelo menos na maioria delas.

Por em falar em escola, naquele dia em que pedi para você me dar alguns exemplares do seu livro – O Amor é Trágico, Ame! - foi porque levei um deles para a escola e fez muito sucesso, todos queriam, alunos, professores e diretores. Eles gostaram muito do livro: e eu tive o prazer de dizer que o autor era o meu pai.

Ah, o Corinthians tá jogando muito bem, acho que é líder ou vice.

To indo dormir, saiba que eu te AMO muito.


Seu filho Lian.


Ao término da leitura desliguei o net. Apaguei a luz. E ditei-me com os olhos transbordantes. Eram lágrimas de um pai ausente diante da possibilidade de não poder fazer mais nada a respeito, apesar de um amor descomunal e a certeza de que ficaremos juntos - muitas vezes ainda - por esses malucos lugares que tanto me atraem.