domingo, 3 de outubro de 2010

Mil vezes alegria no ato de existir

O exato pulsar do instante nos afirma continuamente.

O acaso está sendo genereroso conosco.

Estamos vivos, devemos tão só afirmar a nossa existência. Não somos masoquistas e tampouco sádicos. Definitivamente não gostamos de sofrer. Mas quando é algo inalterável devemos aprender com a dor.

Tudo tem o seu fluxo e refluxo.

A vida é um eterno devir. Nela tudo pode acontecer; porém, enquanto vida nós tivermos sejamos agradecidos, conforme atesta a filosofia trágica.

A axiologia para o trágico é algo que faz parte da sua vida.

O trágico conhece como ninguém o que são os valores e suas armadilhas, exatamente porque reconhece a vida como força maior.

O humor sempre encanta!

"Sejamos felizes, tudo vai mal", atesta a filosofia trágica. O homem feliz realmente incomoda a muita gente.

O homem trágico compreende muito bem que:

Os grandes sonhos só se realizam quando os pequenos são postos em ação. Os maiores caminhos só existem a partir dos pequenos percursos. Os rios mais caudalosos só têm razão de ser por causa dos pequenos cursos de água. Os maiores ricos precisam dos pobres para construir seu capital. Os grandes infortúnios têm tudo a ver com os pequenos. A grande política do domínio dos corpos só existe se a pequena for efetivamente cumprida.

Compadre, fique certo de que, eu e Ivanilda e Sofia e Dionísio somos teus eternos admiradores. Estamos com saudades!

Ficamos contentes em saber que tu és a personificação da besta, pelo menos tu és alguma coisa, melhor do que o anonimato! O acaso vai ser generoso contigo!

Viva os nossos encontros bem vividos!

Viva nossa forte amizade!

Abraços cordiais e eternas saudações filosóficas!

Guilherme da Silva Cunha

Filósofo



sábado, 2 de outubro de 2010

AS TRÊS NOVIDADES

Sábado, 2 de outubro de 2010


Compadre Guilherme: temos novidades.

A primeira é que a minha cirurgia, que seria realizada nesta segunda-feira, dia 4 de outubro, segundo o cardiologista Luiz Ferreira, membro da equipe, fora transferida, agora para o dia seguinte, ou seja, para a próxima terça-feira, dia 5, pela manhã.

Ainda sujeita a confirmação, porém.
Contudo, estou calmo.

A segunda e melhor notícia, no entanto, é a de que Stélia chegou. Agora tenho minha filha ao meu lado, sempre alegre e carinhosa. Ela e Rosângela estão a cuidar de mim. Veio de Goiânia. Temos uma hora por dia, mas a tolerância do pessoal aqui nos deixa juntos, às vezes, por quase duas horas.

O certo é que estou aceitando tudo com a necessária crueldade e alegria. Irrita-me, no entanto, ficar preso a um aparelho que não me permite deixar a maca-cama. Estou indo para o quarto dia nesse estado.

As enfermeiras me dão um banho por dia.
Chamam de "banho de leito". Duas delas ficam a me virar e revirar passando pano ensaboado e jogando água quente para lavar. Já estou acostumado com isso. Tenho um kit higiênico também. Acho até um exagero ter que tomar um banho todo dia!

Nesses dias que cá estou ainda não evacuei, segundo a linguagem técnica das enfermeiras; ainda não fiz cocô, segundo expressão dos educados e ainda não caguei, segundo minha própria versão. E isso apesar da dieta laxativa que a nutricionista Isabel - para quem autografei um de meus livros - me destina. Talvez hoje isso aconteça, pois os primeiros puns ameaçam essa possibilidade, quase iminente.

Conversei com a enfermeira de plantão desta noite, para entrar em um acordo: usar a cadeira com a "comadre" por baixo. Assim ficará mais confortável. É só colocá-la ao lado da cama, de um jeito que não desligue o aparelho que me monitora.

Compadre, enfim, a terceira boa notícia é a de que SS escreveu. Pensei que tinha sumido, abandonando-me. É uma pessoa d um humor interessante. Confesso que os textos dela estão me fazendo muito bem.

Veja, Guilherme, o que ela me remeteu, ontem:

- Mon ami ,

Acabei de chegar ao plantão, e quer saber? Vim correndo para ver se ainda estavas vivo. Obrigada por não ter feito feio frente às minhas expectativas.  Continue assim.

Que esse coração despedaçado sofra menos do que os corações por você despedaçados...
Aqui? O inferno sobre o limbo (sol a pino, pouco vento, perfume francês em abundância (o vulgo cêcê no ar), e uma leva de gente burra!!!!

Quer ter inveja?

Ontem, para matar um sentimento saudosista que me assola, eu umedeci a boca, mergulhei minhas papilas em um vinho (rubro como sangue, denso como sangue e suculento como deve ser o sangue).
Maravilhoso, mesmo que degustado entre eu e eu mesma.
Pude assim me iludir a achar que poderia voar, a despeito dos tão famosos vampiros que sabem tudo de sangue. Eu, particularmente, não curto muito a sensualidade desses seres, eles são óbvios demais!

Quer saber o que eu acho sex em termos de seres fictícios? Ou quer arriscar e tentar me entender? Eu, a princípio acho precoce de sua parte, mas como pretensão é uma condição nata e não sine qua non do homem... Dessa forma, como pretendo que sejamos para lá de amigos vou magnanimamente te conduzindo assim: uma luz para você me decifrar.

Eu sou seduzida pelas criaturas calmas, introspectivas, reflexivas, mas acima de tudo seguidoras de uma ética, mesmo que tal só se faça entender por aquele que a segue.
Curto o filósofo nato que questiona por que veio ao mundo e não aceita a forma como se deu tal criação, e não obstante sua vontade arca com as consequências dessa gênesis (agora a luz....adivinha quem é tal ser!)

Dica um: sua criadora é uma mulher.

Dica dois: é um em muito.

Dica três: é sex e pueril simultaneamente.

Mon ami - ocorreu-me nesse exato momento que posso estar indo além de uma breve visita de cova e, assim sendo, não posso me demorar. Deixe-se cuidar, sim? É o que você tem a fazer nesse momento.
E a respeito de minhas colegas que se acham, elas podem e você, nesse momento, não.

Agora descanse e não morra.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Barba, cabelo e bigode

Mano Guilherme,

Tenho novidade. Na visita da Rosângela, de ontem à noite, pedi que entrasse em contato contigo, pois quero tuas opiniões como parte dessa experiência de vida.

Mas algo aconteceu.

Sem que esperasse, num repente, tiraram-me, às pressas da Unidade de Emergência. Trouxeram-me de lá e instalaram-me na UCO – Unidade Coronariana. Lá, eu estava num furdunço danado: um inferno de sofrimento humano. Sempre lotado de ais e angústias, em leitos espalhados por corredores e vãos estranhos. Sem dormir a noite inteira observava tudo aquilo.

Agora, aqui na UCO é um paraíso.

Literalmente. A Emergência é no térreo, a UCO no quarto andar, como na fábula cristã: um embaixo, outro em cima.

Deram-me um quarto todinho somente para mim.

A cama-maca é toda motorizada. Eu mesmo aperto os botões e me boto sentado, deitado, de cabeça para baixo e, se duvidar, até em posição vertical. Também, é possível manejar o leito fazendo descer as pernas.

Parece a cadeira do papai!

Tenho uma televisão na parede e um aparelho esquisito que monitora até o oxigênio que está a correr pelo meu sangue. Se é que ainda o tenho de tão vampirizado que estou sendo nesta vicissitude. Nos últimos vinte dias: dezenas de seringas chuparam meu sangue quase sem alternância.

A diferença de comodidade entre os dois locais é gritante.

Lá embaixo gritos de sofrimentos; aqui em cima um silêncio extremamente favorável ao ócio criativo. Deixo a TV ligada apenas para sentir vida ao meu redor. Espantar a solidão proporcionada pelo isolamento que se faz necessário.

Fico mais escrevendo sobre o que se passa comigo nesse enfrentamento, mexo em alguns capítulos do romance e na biografia do Barão Mesquita.

Meu bom compadre vivo uma sensação nova, estranha e desafiante, mas depois da mudança estou me sentindo mais ou menos assim: desalojaram-me da Hospedaria Camelo e transferiram-me para o Hotel Pinheiro.

Aliás, Guilherme, falando em besta, uma curiosidade que não devo deixar de registrar. Durante o atendimento de emergência, as enfermeiras, após constrangerem-me no depilamento das partes íntimas – coisa que me deixou ruborizado – também implantaram em meu pulso esquerdo uma coisa que chamam de acesso intravenoso, enquanto que no pulso direito enroscaram uma pulseira com um código de barras: agora sim, definitivamente, sou um número a mais na rua, no mundo e na vida.

Para instalar-me neste quadrante particular do quarto andar do Incor tive que, antes, higienizar-me no banheiro da Emergência. Minha mãe providenciara uma malinha com todos os apetrechos de limpeza pessoal, para esse tipo de serviço corporal que os franceses chamam de toalete.

No banho prolongado usava pouco xampu. Estou quase sem cabelo na cabeça. Mandei passar a máquina na rotação quatro. Por isso deixava a água quente correr sobre o curativo de plástico, gaze e algodão do cateterismo, na virilha.

Esperava que esse processo amolecesse as substâncias que grudavam à pele. Assim, ia retirando vagarosamente o curativo na tentativa de impedir o doer provocado pelo retiramento do material em contato com os pelos pubianos, sempre atrevidos.

Pasmei, Guilherme!

Quando por fim consegui retirar todo o curativo foi que percebi o inusitado: as enfermeiras passaram o barbeador apenas no lado direito de virilha, por onde foi introduzido o cateter.

Fiquei olhando aquela aparência estranha, e irritando-me com o que considerava uma sacanagem. Deveriam ter raspado tudo. Mas uma lembrança me fez ter uma acesso de riso sob a chuveirada confortante: raspar pela metade as minhas partes pudendas me fez lembrar a barba do Braga.

Que coisa esquisita!

O depilar incompleto fazia do meu pênis uma caricatura grotesca amparada pelo saco cabeludo! Agora, porém, mais tranquilo, é que estou me dando conta de algumas coisas, como, por exemplo, o número de identificação na minha pulseira de paciente: ID 3343666. Perceba, compadre, que os três últimos dígitos constituem o bíblico número da besta.

Moral da história: eu é que sou o besta! A exótica mula bíblica, a representação do mal humano. E bem identificado! Com direito à purgatório e chancela oficial.

Um pai ausente

Antes de desligar o computador não deixei de fazer a última consulta em minha caixa de mensagens. E lá estava o texto de meu filhote amado. Não poderia deixar de lê-lo. Lian escrevera:

Quarta-Feira, 29 de setembro de 2010 23:02 horas

- Pai, como você está? Tá bem? Sentiu mais dores no peito, não é? Espero que você melhore para passarmos mais tempos juntos

Eu estou bem e com muitas saudades de ver meu velho. O meu velho que me levava para aqueles lugares malucos; que só faltava me oferecer bebidas ayahuasca; meu velho que era muito presente na minha vida, que só SUMIA de vez em quando.... Rsrs... Eu estou indo muito bem na escola. Minhas provas acabaram tem pouco tempo. Acho que fui bem, pelo menos na maioria delas.

Por em falar em escola, naquele dia em que pedi para você me dar alguns exemplares do seu livro – O Amor é Trágico, Ame! - foi porque levei um deles para a escola e fez muito sucesso, todos queriam, alunos, professores e diretores. Eles gostaram muito do livro: e eu tive o prazer de dizer que o autor era o meu pai.

Ah, o Corinthians tá jogando muito bem, acho que é líder ou vice.

To indo dormir, saiba que eu te AMO muito.


Seu filho Lian.


Ao término da leitura desliguei o net. Apaguei a luz. E ditei-me com os olhos transbordantes. Eram lágrimas de um pai ausente diante da possibilidade de não poder fazer mais nada a respeito, apesar de um amor descomunal e a certeza de que ficaremos juntos - muitas vezes ainda - por esses malucos lugares que tanto me atraem.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Vida de Filósofo

Nobre compadre Stélio,

A vida enquanto vida é sempre generosa conosco. Li atentamente suas notícias.

Encanta-me a tua leveza e tranquilidade em tratar da tua vida.

As reclamações morais existirão; pois, afinal, o que seria do homem se não existisse a ética?

A tua coragem é fantástica. É cruel e real.

Vontada de potência neles, ou seja, nos pessimistas. A vida é sempre boa. Passado é passado, o que realmente importa é a beleza do pulsar do instante, e isso tu captas muito bem!

Sejamos alegres, visto que, os grandes homens sempre apostaram na alegria que brota da alma e não em tagarelices.

A filosofia nos dá a medida exata para a gente perceber o quanto vale uma vida.

A filosofia do Acre precisa de nossas reflexões.

O mundo precisa nos conhecer e a vida nos agradece por contribuirmos com ela.

Saudações filosóficas!

Do seu eterno admirador e compadre.

Guilherme da Silva Cunha

Filósofo

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Antes dos homens madrugam as palavras


COMPADRE  Guilherme - A madrugada ainda me consome. Reli o noticiário político do jornal Folha de São Paulo que havia comprado no shopping, cansando-me. Entediado e arfante religuei o net book, para ver os -mails. De cara li a primeira mensagem:

"Sobreviva. Volte logo, pois agora você é parte da minha vida. Sua alma encantou a minha..

Era de uma pessoa especial e que me atendera com aquela humanidade rara nos dias em que vige, com severidade, a alma impessoal do capitalismo selvagem. Essa pessoa, Guilherme, não deixou de revelar algumas daquelas qualidades que tanto a filosofia nos ensina a admirar.

Enquanto impossibilitado da apresentação necessári e de preferência em uma confraternização em seu chalé - degustando a salada fresca da comadre e sob a bagunça do Nísio – vamos nos referir a esta pessoas apenas como SS.

Que fique claro, entretanto, que não se trata do Sílvio Santos.

- "Acho que voltarei. Estarei em São Paulo por tempo indefinido, a partir deste sábado, e, na segunda-feira, pela manhã farei o cateterismo. Em seguida eles decidirão o tipo de intervenção: angioplastia ou safena. O que decidirão julgando ser o melhor, farei. Terminei o romance. Gostaria muito de escrever outra obra. uma boa história que alegrasse e divertisse ou levasse às pessoas a refletirem. Contudo, confesso, seja lá o que acontecer, sinto-me um homem feliz". - Respondi

Tenho pensado muito compadre em relação a esse infarto. Acho que ele tem um lado positivo: trata-se de uma doença que deixa escancarada que você é o único culpado pelo seu aparreiamento. Por isso acho também que seria por demais justo que o mal somente deveria acometer, pelo menos com mais frequência, às pessoas que vivem a culpar o mundo ou a outrem, por suas desditas.

Em estado de ansiedade e dormidelas intermitentes passei o resto da madrugada, ouvindo a chuva fraca que caía lá fora. O computador, sempre às pernas. Ora mexia no texto do livro, ora abria a caixa de mensagens.  SS escrevera:

- Oi amore. Fico feliz por você ter terminado seu livro.....Isso é, mais um! Em sua cidade deixada para trás, as coisas acontecem. Umas boas, outras ruins , mas vão acontecendo, independente do ciclo da vida.


Quer saber?


Dando seu silencio como assentimento, eis aqui as novas do front: A cidade fervilha! Vejo nas expressões, percebo nos gestos um quê qualquer, diferente. Uma expectativa, recoberta por olhares lânguidos... Como a dizer: - Acredito, contudo....Duvido. Vejo um vai e vem frenético, entretanto, desprovido de garra, entende? Aí me detenho a olhar o que as pupilas escondem e camuflam...


Sabe moço descrente, esse torvelinho de sensações consome muito!


Vou precisar terminar, pois devo lembrar que você, mon ami, se encontra entre o limiar de uma vida para outra, e que assim sendo precisa de introspecção. A sorte sua é que apenas esse músculo - com possibilidades variadas de reparo - é sua limitação.


Imagine se fosse com um que não tivesse como fazer manutenção? Por exemplo... O pau da venta. Desculpe o humor destituído de falso zelo, mas cuido de quem prezo assim, francamente.


Cuide-se, não por você somente, mas pelos que aind]a não te conhecem .Cuide-se, pois, ainda não aprendi a te conhecer. E isso, definitivamente você não pode me tirar!!!

Um bom texto sempre carece de resposta.


Seria um crime não fazê-lo. Hoje, porém, a tristeza me assolou, não pelas safenas necessárias, após o cateterismo desta manhã, mas, por ouvir a voz de minha mãe, ao telefone, culpando-me, condenando-me por entristecê-los neste momento. A intervenção cirúrgica, aqui no Incor, onde estou internado, compadre Guilherme, não me amedronta, mas dá um fiozinho de caganeira do caralho! Vim para a consulta e enfartei diante da médica.


O cateterismo feito logo após o pronto-atendimento no setor de Emergência revelou a desgraceira: tá tudo entupido (acho que até o pau da venta). Não tenho medo desses desafios, nem da morte. Na verdade, até gostaria de ir embora antes dos que amo.


Contudo, é chato ficar em hospital. Mas, é assim mesmo: sempre acreditei que é pau pra comer sabão, e pau pra saber que sabão não se come. Manterei informações, enquanto me permitirem usar o net book.


Aliás, compadre Guilherme, a maior parte desta explicação remeti para SS que assim respondera: Stélio, resolvi aproveitar que ainda te permitem digitar e, cá estou eu. Se sua UTI aí for razoável, você estará em um leito reclinável, com janelas oclusas e sem ver a cor do dia, por isso serei seus olhos no mundo externo .


Descrevo assim, a você rufião, as mazelas que presencio e como fundo moral de toda boa fábula, ao término dessa, você estará dando graças por ter, inclusive o pau da venta para estar obstruído. Hoje, assim que o dia se fez claro e quando ainda restava um pouco do frescor da noite pude, inadvertidamente, perceber a quanta progride a nossa humanidade.


O que te faria parar e pensar? Um sorriso desprovido de dentes, todavia repleto de meiguice? Um esbarrão seguido do mais gentil pedido de desculpas? Uma flor? (essa foi piegas ao extremo)


Pois, o que me fez refletir sobre as passadas que damos em prol da nossa evolução não se encaixa em nada tão elementar, caro Watson purusniano. Detive-me, posto que não no ruim, antes sim, na promessa de dias mais promissores.


Acredito que você vai sair desse macabro nicho branco e fresco, e dividirá com os que agora contemplo o rubor de face, o suor a descer pelo colarinho e agonia de não ter um rio de águas claras e frias, para nos apaziguar os ânimos (portanto, moço de família, cure-se!) .


Acho que não te contaram, mas a equipe só faz a parte dela, sendo que o resto depende de sua majestade, aí deitada nesse leito (que permite muito mais que ficar deitado), por exemplo, se aí perto tiver uma residente que tenha um pouco de massa cinzenta e frisson sexual, e se deixe levar pela sua lábia.entendeu?


Mas, se assim não o for, que tal se dedicar ao conhecimento do sexo tântrico? Pode ser uma boa distração, pois autocomiseração definitivamente não se encaixa no seu epitáfio.


Presumo que você há de sentir dor, mas quem disse que ficar são é prazeroso? Submeta-se... Concorde.... Questione... Cobre... Mas, acima de tudo:DECIDA.


Não se permita ser, nesse momento crucial, agente passivo e nem se torne uma mula empacada. Como já diziam os antigos :NEM TANTO AO MAR, NEM TANTO À TERRA.

Sabe, compadre Guilherme, apesar da consciência de minha obtusidade nata, surpreendentemente, fiquei com a impressão de entender a mensagem. SS, em Rio Branco, demonstrava um pragmatismo invejável, que parecia perceber o todo, e agindo com invejável eficiência na parte desse mesmo todo.

Não deixei de perceber que era arguta.

O humor, no entanto, para usa como escudo dessa inteligência que faz questão de esconder. Por isso tinha que responder, mesmo com as minhas pieguices. Eis o que escrevi depois de acionar pelo ícone o lugar onde está escrito "responder":

- Acho que deverias escrever mais amiúde. SS,estou ainda na unidade coronáriana do Incor, em preparação para a cirurgia, já que deverão abrir o meu peito na segunda-feira, dia 4. Me pergunto: como podem abrir o que já está dilacerado... Matuto, sozinho, no leito M08, olhando pela janela à prova de som o intenso e silencioso tráfego da paulicéia desvairada. Relembro dos anos que aqui vivi. As residentes aqui, justamente por ser um hospital da USP abundam com suas bundas, porém, são mais acalentadas pelas enfermeiras que a chamam de "doutoras", como elas tivessem PhD em Paris, Londres, Sorbonne ou Harvard. É bonita, a maioria, Falta-lhes, no entanto, a fatal sensualidade da caboclice amazônica que rasga a alma de um homem com tanto fervor, que o prosta, submisso. Nada contra as branquelas, mas tudo a favor da brejeirice da mata.


Faz muito tempo que desisti do sexo sânscrito, tântrico, dândrico, critico, sádico, e todos os exercícios e orgasmos que consolam o corpo. Ainda masturbo-me, entretanto. Faz-me sentir jovem. A cada punheta uma espinha nova no rosto. Quem dera... Ainda estou com o computador, apesar da várias tentativas de me surrupiarem. Tem cada enfermeira que se acha... Primeiro explico que tenho autorização médica para esse privilégio, coisa pré-acordada, pois sem ele, meu tratamento fica mais dificultoso. Quando querem insistir apresento um documento abrindo mão de tudo e se retirando do recinto, tudo assinado por mim e por meu advogado, devidamente registrado em cartório.Apenas uma maneira clara de mandar alguém tomar no cu, embora que, ao final, que acabe tomando no cu seja eu mesmo. Bem tenho uns três dias por aqui, sendo visitado duas vezes ao dia por minha irmã. Muito zelosa. Minha filhar chega de Goiânia na sexta, assim ficarei melhor, mas não deixe de brindar-me com sua alegria, seu carinho especial e seu texto espirituoso. Axé.

Agora vou tentar dormir, enquanto os carros se enfileiram pela Oscar Freire... Lá, longe.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

São Paulo, 26 de setembro de 2010.



Compadre Guilherme,

A Paulicéia Desvairadaminha amanheceu mais do que típica neste domingo: fria e salpicando sua garoa em rostos indistintos, que se aventuravam em busca de lugares aconchegantes para passar o tempo. Inclusive, no meu e de Rosângela, que -  acompanha-me nesta desdita - fomos parar no shopping mais próximo de onde estamos alojados, uma casinha na Sílvio Sacramento, em Pinheiros, com facilidade de acesso ao Instituto do Coração, o Incor, meu destino almejado.

Por questão de comodidade esse bairro é o ideal. Daí não ser possível ficar hospedado em casa de nosso irmão caçula, o Rossini, que mora e trabalha na Zona Oeste da cidade. Ele é professor e fez uma belíssima dissertação de Mestrado sobro o nosso querido Hélio Melo.

Temos aqui, Guilherme, um filósofo candidto a deputado federal. Trata-se de Gabriel Chalita.

Dormimos bem, pois de igual mourejo foi a viagem de Rio Branco até Sampa.

Como testemunhastes, a semana para mim foi muito penosa, realmente sofrida. "Agora posso me gabar que tive o primeiro infarto". Essa frase cairia muito bem no humor do Élson Sombreira, digo, Dantas. Mas, a verdade é que o primeiro infarto a gente nunca esquece.

E como dói.

Assim, compadre, juntamente com minha irmã perdi o dia de domingo a passos lentos, numa galeria paulistana onde almocei e adquiri um agasalho, já que sou desprevenido quanto ao clima daqui, daí e alhures. Aliás, meu fardamento sempre foi camiseta, jeans a alpargatas. Se bem que desta vez estou usando um tênis. Coisa rara, claro. O interessante Guilherme, é que se trata do tênis que me destes. Uso-o em tua homenagem. E, por tabela, à comadre, Nísio e Sofia, meu segundo exército.

A eles, membros de meu contingente amado, o meu beijo saudoso. A comadre me orgulha muito pelas responsabilidades que assume; a Sofia a destruir corações, enquanto o Nísio já disse a que veio: fala o que quer e o que lhe dá na telha. Bruto ou angelical, ele exala amor. Pelos poros. Será um grande guerreiro, sem dúvida, puramente amazônico.

Uma sina interessante surpreendeu-me.

E foi motivo da conversa do domingo. A casa que me hospeda hoje na Sílvio Sacramento – uma ruazinha estreita de paralelepípedos – entre a Cardeal Arcoverde e a Teodoro Sampaio, compadre, foi onde me acolheram na madrugada de 28 de novembro de 1983 - depois de participar, com um grupo de estudantes de Ribeirão Preto - do primeiro comício do movimento Diretas, Já!

Foi no dia 27 de novembro de 1983, que quinze mil pessoas se reuniram no comício organizado pelo PT na Praça Charles Miller, em frente do estádio do Pacaembu, exigindo o retorno às eleições diretas para presidente. Lula surgiu politicamente nesse comício, deixando de ser apenas um simples sindicalista do ABC paulista.

Conforme se encontra fartamente registrado, ali era o início da campanha das Diretas Já!, a maior mobilização política e popular da história brasileira que, se não alcançou seus objetivos de imediato, ajudou profundamente a reconstruir a democracia no Brasil. A idéia de criar um movimento a favor de eleições diretas foi lançada, em 1983, pelo então senador Teotônio Vilela no programa Canal Livre da TV Bandeirantes.

A manifestação contou com representantes de diversas correntes políticas e de pensamento, unidas pelo desejo de eleições diretas para presidente da República. Muitos políticos da situação, sensíveis às suas bases, também formaram um bloco de dissidência no Partido Democrático Social (PDS), ex-Arena, o partido situacionista. Pesquisando, enriqueço esta carta a meu compadre com mais informações: a essa altura, a perda de prestígio do regime militar junto à população era grande. Militares de baixo escalão, com seus salários corroídos pela inflação, começavam a pressionar seus comandantes - que também estavam descontentes.

Lideranças - O movimento agregou diversos setores da sociedade brasileira. Participaram inúmeros partidos políticos de oposição ao regime ditatorial, além de lideranças sindicais, civis, artísticas, estudantis e jornalísticas. Dentre os políticos, destacaram-se Tancredo Neves, Leonel Brizola, Miguel Arraes, José Richa, Ulysses Guimarães, André Franco Montoro, Dante de Oliveira, Mário Covas, Gérson Camata, Orestes Quércia, Carlos Bandeirense Mirandópolis, Luiz Inácio Lula da Silva, Eduardo Suplicy, Roberto Freire, Fernando Henrique Cardoso e muitos outros.

A cantora paraense Fafá de Belém participou ativamente no movimento das Diretas Já a partir do comício de 16 de Abril de 1984. Fafá se apresentou gratuitamente em diversos comícios e passeatas, cantando de forma magistral e muito original, de entre outros temas, o "Hino Nacional Brasileiro", gravado no seu álbum Aprendizes da Esperança, lançado no ano seguinte. A célebre interpretação, diante das câmeras, para uma multidão que clamava pela redemocratização do país, foi muito contestada pela Justiça, mas ao mesmo tempo, foi ovacionada e aclamada pelo público.

A emenda - Dante de Oliveira, eleito deputado federal em 1982 pelo PMDB, assumiu em 1 de janeiro de 1983 e desde então começou a coletar as assinaturas para apresentar o projeto de emenda constitucional que estabelecia eleições diretas (170 assinaturas de deputados e 23 de senadores). No dia 2 de março de 1983 finalmente apresentou a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) n° 5.

O Acre não ficou de fora desse movimento e relizou um ato, em fevereiro de 1984 que reuniu mais de sete mil pessoas, um número significativo para a nossa terra.  Como morava em Ribeirão Preto, nesse período, participei do movimento fora de meu ntorrão acreano.

Em 25 de abril de 1984, sob grande expectativa dos brasileiros, a emenda das eleições diretas foi votada, obtendo 298 votos a favor, 65 contra e 3 abstenções. Devido a uma manobra de políticos aliados ao regime, não compareceram 112 deputados ao plenário da Câmara dos Deputados no dia da votação. A emenda foi rejeitada por não alcançar o número mínimo de votos para a sua aprovação.

Nesta época tive também o privilégio de conhecer Henfil, que se envolvia com cinema, teatro, televisão (trabalhou na Rede Globo, como redator do extinto programa TV Mulher) e literatura, mas ficou marcado mesmo por sua atuação nos movimentos sociais e políticos brasileiros. Ele tentou seguir carreira nos Estados Unidos, mas não teve lugar nos tradicionais jornais estadunidenses, sendo renegado a publicações underground. Ele então retornou ao Brasil, publicando mais um livro. Após uma transfusão de sangue acabou contraindo o vírus da AIDS. Ele faleceu vítima das complicações da doença no auge de sua carreira, com seu trabalho aparecendo nas principais revistas brasileiras.

Mas, meu bom compadre, manterei contato. E notícias.

Um abraço.